Rede de Observatórios de Segurança

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Mês: janeiro 2021

Visibilidade trans é sobre humanização

Por Dália Celeste*

Depois que mulheres transexuais e travestis estiveram em Brasília para lançar a campanha “Travesti e Respeito”, do Programa Nacional de DST/Aids, em 29 de janeiro de 2004, a data ficou conhecida como Dia da Visibilidade Trans. O objetivo é estimular reflexões sobre a humanização e cidadania para nós. Mas lembro que , a luta contra o preconceito, a estigmatização, a exclusão e a discriminação dos nossos corpos é diária.

O Brasil foi o país que mais matou pessoas trans e travestis em todo o mundo no ano de 2020 segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).  . Foram 184 registros. Entre eles,175 execuções. Os números revelam que 56% tinham entre 15 e 29 anos, 65% das mortes foram de profissionais do sexo e  71% desses crimes aconteceram em locais públicos. Também precisamos olhar para a questão racial para analisar essas mortes: 78% das vítimas foram identificadas como pessoas negras e não brancas. Ter esses crimes cruéis contabilizados (lembro que existe subnotificação) é importante para que possamos cobrar políticas de segurança pública para essa população.

Uma das primeiras violências que pessoas trans e travestis enfrentam parte da família. São os pais que estabelecem um destino para seus filhos dentro de seus conceitos cisheteronormativos. Esses corpos quebram às expectativas estabelecidas. É dentro de casa que começam os processos de não aceitação. No ambiente escolar não é diferente. Muitas pessoas trans e travestis acabam abandonando os estudos.

Um artigo assinado por Maria Daniela (RENFA-PE) e Apollo Arantes (MOVIHT-PE)  explica que durante a pandemia muitas mulheres trans e travestis passaram a enfrentar o medo da violência e das consequências do coronavírus. Muitas não conseguiram nem mesmo o auxilio emergencial. Além disso, ainda enfrentam um retorno forçado à família: “A convivência obrigatória em ambientes familiares foi fortalecida pela pandemia e assim colocou em extrema vulnerabilidade pessoas trans que ainda convivem com seus familiares, mas que não tem boa relação. Esse é um estado de alerta para a população transmasculina, tendo em vista o alto grau de pensamento suicida que essa população apresenta”.

A mídia coloca à sombra todas essas violências que sofremos. Não há prioridade na pauta para essas discussões. Notamos que na hora do óbito, todo o empoderamento do corpo e sua construção da identidade de gênero é deslegitimada. Sendo enterradas junto com o desrespeito de sua história, que por muitas vezes é apagada ou exposta por um gênero que a vítima não se identificava.


Até na morte a cidadania de pessoas trans e travestis segue negada na sociedade. É necessário mudar a forma como falamos sobre o assunto. Somos corpos excluídos por um estado fundamentalista e um sistema conservador. Pessoas travestis e transexuais devem ter visibilidade em todos os espaços e em todos os hábitos sociais como família, educação, mercado de trabalho, saúde, segurança e afetividades. O direito de ser e existir de pessoas trans e travestis, é constitucional.

Por isso, é muito importante frisar que o dia da visibilidade trans é todos os dias. É preciso entender que esse processo de humanização é urgente, enxergar esses corpos não apenas por suas identidades de gênero, mas como corpos que possuem também suas particularidades enquanto pessoas, que são capazes, tem autonomia e podem desenvolver trabalhos incríveis.

A cada trans e travesti vivas, forma-se um novo universo social.

** Dália Celeste é pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança em Pernambuco.

‘Minha filha foi assassinada por um policial militar enquanto trabalhava’

Por Sandra Sales*

Minha filha levou um tiro fatal pelas costas e já caiu morta, sem qualquer direito de defesa. Ingrid Mayara tinha 19 anos, trabalhava, estudava, estava fazendo discipulado para ser obreira da Igreja e foi vítima da chacina do bairro Ellery, em Fortaleza, que completa oito anos hoje. Todo o seu currículo não a isentou de ser assassinada em um bairro da periferia de Fortaleza, no dia 26 de janeiro de 2013, vítima de uma ação do estado. Minha filha foi assassinada por um policial militar enquanto trabalhava. Ingrid era vendedora ambulante no pré-carnaval da Praça Manuel Dias Macedo quando a polícia atirou contra as pessoas que estavam na festa. Me chamo Sandra Sales, sou mãe da Ingrid Mayara e luto por justiça em um estado preconceituoso, genocida e homicida. 

Minha filha deixou uma bebê de 1 ano e 8 meses. Enquanto Ingrid estava no chão, morta por um tiro da PM, seu peito escorria leite e sua bebê chorava para mamar. Minha neta, que se tornou filha, só dormia depois que mamava. Mal sabia que não ia mais poder mamar no seio de sua mãe. O Estado fez, assim, várias vítimas de uma só vez. A filha de Ingrid teve que mamar no peito de vizinhas que amamentavam. Minha cunhada chegou a ser “mãe de leite” dela. Muitas vezes ela recusava, chorava um choro de dor, pois sabia que não era o peito da sua mãe. Ela só chorava, ela só queria sua mãe. 

Eu pedi a Deus que tivesse misericórdia de mim. Estava cansada, triste, abatida, e ainda sem acreditar em toda aquela tragédia. Em uma noite, deitei com ela e dei meu peito para ela. Agarramos no sono e, quando acordei, ela estava mamando em mim. E foi assim que ela sobreviveu a toda essa desgraça. Apesar de todo sofrimento, hoje está com 9 anos e é uma menina amável, doce, inteligente, educada. No entanto, sente a fragilidade, tem medo do escuro, entra em pânico quando eu demoro a chegar em casa. Menos de dois meses após o assassinato de Ingrid, minha neta perdeu também o seu pai. Ele foi assassinado na mesma rua em que Ingrid morreu.

Sandra Sales tornou-se ativista depois da morte da filha

Nesse cenário, depois de tantas tragédias, fui embora por um tempo e só decidi retornar ao bairro quando tomei a decisão de buscar por justiça para a minha filha. Na época do assassinato, eu era uma pessoa proativa e trabalhava como gerente comercial de um hotel na Praia do Futuro. Eu era saudável, dinâmica, alegre. Nunca imaginei que um dia teria depressão, problemas de pressão alta, ossos fragilizados e estaria fazendo uso de medicamentos de uso controlado. Isso foi o que o estado nos trouxe. 

O estado não se responsabiliza, nem os policiais foram presos. São 8 anos de luta sem resposta. Fui para muitos locais, muitas caminhadas. Muitas das vezes saí sem almoçar, sem transporte para voltar.  Atualmente faço parte do grupo de mães vítimas do Estado, organizadas nacionalmente, além do grupo de Mães da Periferia do Ceará, Movimento Cada Vida Importa e Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará. Felizmente temos parceiros que nos acompanham e nos auxiliam! 

Quero justiça por tudo que estou passando mas, principalmente, pela vida da minha filha, Ingrid Mayara. Essas balas só acertam pobre, preto e favelado. Se você não correr atrás, esses crimes ficam na impunidade. 

* * Sandra Sales é mãe de Ingrid Mayara, membra do grupo Mães da Periferia do Ceará, do Movimento Cada Vida Importa e do Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará.

‘A defasagem de dados na favela mantém estrutura que nos silencia’

Por Bruno Sousa*

Os dados oficiais produzidos pelo estado não conseguem dar conta das favelas e periferias. Várias organizações da sociedade civil têm se movimentado para produzir dados que sejam coerentes com áreas e realidades específicas. Entre elas, está o LabJaca, um laboratório de dados e narrativas na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro.  

A iniciativa surgiu no meio da pandemia, através da junção de jovens negros e periféricos que já tinham atuação nas favelas. Eu sou um deles. Nossa ideia é produzir dados confiáveis sobre educação, segurança pública e saúde no nosso espaço. 

A iniciativa sugre da união de jovens periféricos. (Divulgação: Lab Jaca)

Inicialmente, a equipe se reuniu para fazer a distribuição de alimentos e kits de higiene para a população do Jacarezinho. No meio disso, decidimos aplicar um formulário com perguntas básicas sobre a covid-19. Questionamos sobre sintomas, se infectados e óbitos. O resultado nós deixou em choque. 

Os números da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro apontavam menos de 10 casos suspeitos em toda a favela e nenhum caso confirmado. Já o levantamento da nossa equipe revelava dezenas de casos suspeitos e muitos casos suspeitos graves, que não foram confirmados por falta de teste. 

Os dados que acabamos produzindo confrontavam diretamente os dados “oficiais” apresentando números muito maiores. No geral, é o que acontece quando os dados são produzidos por organizações que atuam na garantia dos direitos humanos. Mostrar para todos essa discordância tem como principal propósito pautar políticas públicas que resolvam os problemas apresentados pelos dados ditos “não oficiais” que os órgãos oficiais tentam deslegitimar.


Sendo bem didático e trazendo o exemplo do Jacarezinho, o último censo do IBGE em 2010, apontava 37 mil moradores na favela. No entanto, os moradores sabem que esse número é pelo menos duas vezes maior.  Ou seja, existe uma grande lacuna nesses números que precisa ser resolvida. Se não se sabe o número real de moradores, não é possível ter escola para todo mundo ou atendimentos para todos na UPA e clínica da família.  Como levaremos testagem e vacina contra o coronavírus para toda essa população se boa parte dela não está compreendida nesses números?

No LabJaca, transformamos esses dados em narrativas audiovisuais com linguagem simples. A ideia é que nosso levantamento seja consumido e entendido pela população das favelas. Nos preocupamos com quem essa produção impacta. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2020, pelo menos 11 milhões de pessoas no país são analfabetas e apenas 12% da população é proficiente, ou seja, conseguem ler, escrever e compreender tudo que está sendo dito e escrito. Dentro disso, a forma como comunicamos  nossos dados  é tão importante quanto os próprios dados. Para a gente, não adianta mostrar gráficos rebuscados para a tia da esquina ou chegar nela com dados oficiais defasados em uma linguagem acadêmica classe média Jornal Nacional. 

Vivemos em uma era onde tudo, ou quase tudo, é pautado por dados. Essa onda crescente na produção, tratamento e armazenamento serve tanto para uma avaliação sobre o presente quanto para fazer projeções futuras. A defasagem de dados na favela acontece para manter a estrutura que nos invisibiliza e silencia. Dar luz aos números reais é apontar o dedo para quem tem responsabilidade sobre eles

** Bruno Sousa é pesquisador do Cesec e coordenador de comunicação do Lab Jaca