A Odisseia da volta para casa
Por Wellerson Soares*
Sempre me captura, e me fascina, a imprevisibilidade das afetações que uma obra pode nos causar. Quando cheguei ao cinema para assistir à Odisseia, novo filme de Christopher Nolan, não imaginava para onde a saga de Odisseu me conduziria. Assistir à angústia de Telêmaco sem saber quando reencontraria o pai me levou a uma infância na qual era raro também ver o meu, que sempre teve escalas de trabalho exaustivas e não existia um horário fixo em que nos encontrávamos. Ao longo dos anos, foram muitas as histórias que povoaram meu imaginário sobre os esforços que ele fazia para chegar em casa e descansar minimamente para repetir tudo dia após dia.
E como nenhuma experiência no capitalismo é única, foi inevitável entrecruzar nossas vivências e lembrar que eu, anos depois, vivi minha própria epopeia diária na volta para casa da antiga redação do jornal O Dia, na Rua dos Inválidos, na Lapa. As quase duas horas de trajeto tornavam as noites longuíssimas, imprevisíveis e, por que não, inseguras.
Lembrei-me da véspera de Natal de 2017, passava das nove da noite. Já estava próximo de casa quando ouvi ao longe um carro se aproximando em alta velocidade. No primeiro momento, pensei se tratar de um dos garotos do bairro que mal têm idade para dirigir, mas pegam o carro dos pais emprestado para impressionar as garotas. Só me dei conta do que se tratava quando o veículo da PM freou bruscamente a poucos metros de mim e o motorista colocou o fuzil para fora da janela e deu um tiro de alerta para o alto. O objetivo era assustar e dispersar um grupo de jovens que estava parado na esquina da minha rua conversando — uma das cenas mais comuns nos mais de 20 anos em que lá morei.
Aquela violência arbitrária ficou gravada na minha memória, mas foi apenas um capítulo de uma longa rotina. A jornada diária de volta para casa não dependia de monstros mitológicos ou da fúria dos deuses de Homero, mas das engrenagens violentas de uma cidade em constante estado de exceção. A minha odisseia, e a de muitos, foi, e é, encarar os trilhos da SuperVia em dias de jogo, esquivando-se de emboscadas e brigas violentas entre torcidas organizadas nos vagões; passar por abordagens do Segurança Presente na Central do Brasil, onde agentes me paravam e olhavam minhas pupilas durante revistas vexatórias, tateando qualquer pretexto para justificar a suspeição sobre mim e tantos outros.
Voltar para casa nunca foi o encerramento natural do dia, mas o resultado de uma travessia minada pela violência urbana e pela vigilância ostensiva do Estado. Para mim e para a maioria, essa rotina resultava em medo e constrangimentos; para outros, tornou-se o fim trágico da própria jornada. Renato Oliveira, de 48 anos, Cláudio Pedro da Silva, de 45, e Francinaldo Ribeiro de Souza, de 34, foram fatalidades desse mesmo contexto em um único ano (2024), no Rio de Janeiro. Todos mortos por disparos de arma de fogo enquanto utilizavam o transporte público.
Na arquitetura do racismo institucional brasileiro, o negro periférico ou é neutralizado pela violência ou é apontado como o causador dela. O perfilamento racial faz com que a suspeição recaia sobre um indivíduo pela cor de sua pele. Pessoas negras tentando voltar para casa, correndo para não perder o ônibus, saindo do segundo ou terceiro turno de trabalho ou apenas conversando na esquina numa noite qualquer são automaticamente convertidas na ameaça que precisa ser combatida, encurralada e reprimida.
E a própria casa, que deveria marcar o fim da odisseia diária, transforma-se com frequência em uma extensão do campo de batalha. Para quem vive nas favelas e periferias brasileiras, a metáfora do lar invadido não pertence apenas à ficção homérica retratada nas telas. Assim como Ítaca foi violada na ausência de seu líder, os lares periféricos são sistematicamente profanados durante incursões policiais: portas arrombadas, imóveis transformados em trincheiras, bens depredados ou roubados e famílias encurraladas no próprio espaço privado. Sob a justificativa da guerra às drogas, destrói-se o único santuário que restava para a proteção da vida.
Esse cenário confere urgência direta ao debate sobre o plano de reocupação das favelas no Rio de Janeiro, promovido pelo governador em exercício Ricardo Couto. Para que essa iniciativa não se reduza a mais um ciclo ineficiente de violações na história fluminense, o divisor de águas precisa ser o compromisso real com os parâmetros fixados pela ADPF 635 — garantir a redução de danos, o uso obrigatório de câmeras corporais, a presença de ambulâncias e a proibição de operações arbitrárias que interrompam serviços essenciais.
Não é mais aceitável uma política de Estado que só chegue aos territórios populares por meio de tiros, blindados, repressão e mortes. A verdadeira ocupação que a periferia demanda não é a militarização ostensiva, mas a garantia de direitos fundamentais: saneamento, iluminação, transporte digno, educação e o respeito irrestrito às garantias constitucionais.
Voltar para casa em segurança ao fim de um dia de trabalho não pode continuar sendo tratado como uma conquista épica ou um golpe de sorte individual. Interromper a violação sistemática dos lares e dos corpos negros nas periferias é o único caminho para que a odisseia do trabalhador brasileiro deixe finalmente de ser uma saga de sobrevivência e se torne o exercício pleno da cidadania.
Wellerson Soares é coordenador de comunicação na Rede de Observatórios*