Rede de Observatórios de Segurança

A semiótica do som na favela

event 4 de fevereiro de 2026

por Wellerson Soares*

Viver na favela é aprender a decifrar uma gramática ignorada pelo asfalto. É ser moldado por uma rotina de contrastes. Ao mesmo tempo em que a comunidade pulsa no ritmo do pagode alto em casas e bares, com as risadas de crianças na rua e o cheiro de comida temperada saindo das janelas, instala-se um silêncio tenso quando um ruído estranho corta o ar. Uma vez aprendidos esses códigos, torna-se difícil desvencilhar-se das sensações provocadas por eles, por mais que aquela rotina não faça mais parte da sua vida.

Há não muito tempo, minha mãe e eu tomávamos um café da tarde no quintal de casa, um desses momentos em que tudo parece em paz. De repente, ouvimos o assobio metálico de um carrinho de mão passando na rua. O calafrio foi imediato. Paramos de falar e, naquele silêncio, começamos a conversar sobre como esses sons nos moldam e como aprendemos a estar atentos a tudo. Daquele momento em diante, passei a refletir sobre a semiótica dos sons – e tantos outros elementos – ensinada pela favela. O som de uma roda de metal no asfalto, por exemplo, pode significar a construção de um sonho ou o transporte de uma tragédia.

Quem não sente esse calafrio não entende a profundidade de ser morador de favela. Para quem vê de fora, o carrinho de mão é ferramenta de obra. Mas para residentes de comunidades abandonadas pelo Estado e entregues às dinâmicas de violência das facções, ele é, por vezes, o único “carro fúnebre” capaz de circular por becos estreitos onde o serviço público nunca chega. Essa experiência gera códigos compreendidos apenas por quem vive ali. É um trauma misturado ao cotidiano, onde a sirene da viatura não evoca proteção, mas alerta e apreensão. A gente aprende a diferenciar o som do calibre, a direção do estampido, se o barulho vem de fogos ou tiros e a urgência do grito.

A realidade da relação segurança pública e violência atualmente tem se resumido a operações, confrontos, mortes de faccionados, mortes de policiais, retaliações e novos tiroteios com vítimas inocentes. E majoritariamente, já mostramos em seis edições do relatório Pele Alvo, as vítimas são jovens negros periféricos.

Esse cotidiano é tão presente que o absurdo acaba virando hábito. Há três dias, assistia à entrevista de um morador de Parada de Lucas, Zona Norte do Rio de Janeiro, após um tiroteio entre policiais e traficantes. Ele dizia: “Ah, isso [tiroteio] é normal, nós já estamos acostumados, infelizmente”. Essa fala não é falta de sentimento, mas um mecanismo de defesa. O “costume” é o que permite a esse morador e a tantos outros levantarem no dia seguinte para trabalhar. Mas tal “adaptação” tem um preço alto para a saúde mental, especialmente dos jovens. O estudo “Saúde na linha de tiro“, do projeto “Drogas: Quanto Custa Proibir”, confirma que a exposição frequente à violência armada aumenta drasticamente os casos de ansiedade e depressão nas comunidades. O cérebro entra em um estado constante de “luta ou fuga”, gerando traumas que afetam o futuro e a capacidade de planejar a vida.

No entanto, a favela não se resume a essa dor. Existe um contraponto poderoso que a mantém de pé. A mesma gramática identificadora do perigo também celebra a vida. É a rede de apoio que motiva o vizinho a cuidar do filho do outro para que este possa trabalhar; é a criatividade transformando o pouco em cultura, música e negócio. A favela é um lugar de potência intelectual e artística vibrante, onde a alegria é uma forma de resistência política. Onde há o som do tiroteio, também há o da caixa de som no churrasco de domingo, o grito de gol no campinho de terra batida e a solidariedade muitas vezes desconhecida pelo asfalto.

Suavizar essa realidade é reconhecer que, apesar das estratégias emocionais criadas para driblar a violência, a humanidade da favela prevalece. É preciso, porém, mudar a lógica de “guerra” como projeto político, deixando de enxergar o favelado como inimigo e as periferias como campos de batalha. Tomamos nosso café com o ouvido atento, sim, mas com o coração aberto para a próxima festa, o próximo mutirão e a certeza de que nossa vida vale muito mais do que os códigos bélicos tentam impor. Ser favelado é saber que o perigo assobia no carrinho de mão, mas a esperança grita mais alto em cada laje que se levanta.

Wellerson Soares é coordenador de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança*

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