Rede de Observatórios de Segurança

De Virgínia Fonseca a Babíy Querino: com os jovens negros, o Estado escolhe errar

event 12 de agosto de 2025

* Por Nathália da Silva 

Entre privilégios que se disfarçam de influência e desigualdades que se perpetuam no silêncio, o contraste entre a trajetória de Virgínia Fonseca e a de jovens negros como Babíy Querino expõe a face mais crua do racismo institucional no Brasil. Enquanto erros e suspeitas são suavizados pela fama, a cor da pele segue sendo sentença antecipada para muitos, determinando quem será protegido e quem será engolido pela seletividade do sistema de justiça. Nesse cenário, vidas negras são sistematicamente reduzidas a estereótipos, e a juventude periférica precisa se reinventar para existir e reivindicar o direito básico de sonhar.

Virgínia Fonseca segue à risca os elementos que constroem o privilégio branco no Brasil. Com mais de 50 milhões de seguidores nas redes sociais, a influenciadora está na lista de pessoas investigadas por propagação de jogos virtuais de apostas. Sua presença na CPI das Bets foi marcada por um tratamento repleto de regalias e posturas inadequadas, tanto da sua parte quanto dos congressistas. O vício em jogos online tem ceifado vidas diante de problemas de saúde mental que os endividamentos causam. De acordo com a pesquisa do Instituto Locomotiva, 51% dos jogadores admitem que esta prática aumenta a ansiedade e outros 23% afirmam que convivem com o sentimento de culpa. O assunto exige sensibilidade e seriedade. No entanto, até uma selfie foi tirada durante a audiência.

Entre stories roteirizados e fotos bem posadas, o caso revela muito sobre como os espaços de poder e decisão escolhem errar com jovens historicamente marginalizados no Brasil. Juventude é movimento, seja ele interno ou externo. Nesta fase, há um acúmulo de experiências que calculam o momento de firmar os pés e buscar caminhos estratégicos para um presente digno e um futuro promissor. Mas, para alguns perfis e territórios, só é possível se movimentar por meio de oportunidades. 

Acessar saúde, lazer e cultura com qualidade não é tão fácil quanto deveria. E quando o descaso torna-se rotina, é a juventude que se organiza para mudar realidades e amenizar os impactos das desigualdades ao redor dos seus através de doações de cestas básicas, criação de iniciativas sociais e participação ativa em movimentos da sociedade civil. Mas o Estado opta também por não enxergar ações sociais que buscam preencher as lacunas da sua ausência nestes territórios. 

Se Virginia fosse uma mulher negra, provavelmente chegaria algemada no Senado. O tratamento seria bem diferente, sem qualquer simpatia ou compreensão, como aconteceu com Bárbara Querino. Diante das garras do racismo, a artista viu-se literalmente presa sem ter feito nada de errado. 

Aos 19 anos, Babíy, seu nome artístico, foi presa injustamente acusada de participar de um roubo de carro e joias e de integrar uma quadrilha. No momento do crime, que ocorreu em um bairro nobre de São Paulo, ela estava participando de uma sessão de fotos para um clipe no Guarujá. Existem fotos comprovam isso. No entanto, ela foi “reconhecida” pelas vítimas do delito apenas pelo cabelo. Ela ficou na prisão durante um ano e oito meses. Ela foi definitivamente inocentada no dia 13 de maio de 2020, data marcada pela falsa abolição de negros escravizados. O caso de Bárbara mostra o quanto a liberdade ainda está longe de ser alcançada para nós. 

Mesmo em liberdade, Babíy precisou provar sua inocência em várias instâncias. Parecia que a passagem pelo sistema carcerário estava escancarado na testa de maneira que fosse uma marca inesquecível. Enquanto do outro lado da moeda, as violações cometidas por Virginia foram apagadas por uma cortina de fumaça que envolve ser rainha de bateria de uma escola de samba, encerrar o casamento com o filho de um cantor famoso e trazer novidades para sua marca. Percebe o quanto a racialidade pode ser o fator determinante para expor ou proteger alguém de violências? 

No livro O Pacto da Branquitude, Cida Bento afirma que “a preferência de um mesmo perfil de pessoas para lugares de comando e decisão nas instituições financeiras, de educação, saúde, segurança, etc., precariza a situação de vida da população negra”. A autora traz a importância de manter viva a memória coletiva sobre as vivências de um povo, pois o esquecimento pode esconder atos violentos que o opressor pretende apagar ao longo do tempo para seguir sendo lido como herói. 

Os corpos de jovens negros são mais que as violações sofridas. Babíy é mais que uma prisão injusta. Rafael Braga não se resume a uma garrafa de pinho sol. Kathlen Romeu foi e é muito além de uma vítima do Estado. Os sonhos dos meninos de Costa Barros eram muito maiores dos definidos por seus executores. Resumir essas trajetórias ao descaso do Estado é desumanizar histórias que precisam ser contadas de outras maneiras.

No entanto, é inegável: ver a juventude negra ser exterminada, desaparecida e criminalizada é o ápice da continuidade da colonialidade. O relatório Pele Alvo: mortes que revelam um padrão aponta que uma pessoa negra foi morta pela polícia a cada 4 horas. Este é um alerta para protegermos as juventudes, cis ou trans, PCDs, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, faveladas e periféricas.

*Nathália da Silva é assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança.

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