Isso a Globo não mostra: a vida que a TV e o Estado não veem
Por Wellerson Soares*
Quanto mais escrevo sobre segurança pública (ou sobre outro assunto), menos certeza tenho de qualquer coisa. Aliás, a incerteza deveria ser, muitas vezes, o ponto de partida mais honesto para quem se propõe a fazer análises sobre fenômenos cotidianos.
Recentemente, assistindo ao RJTV1, vi o jornalista Edimilson Ávila repetir reiteradas vezes que a bandeira do BOPE — a famosa caveira atravessada por armas e uma faca — era “a bandeira do Estado chegando à Muzema”, em uma ação que instalou uma base avançada e realizou treinamentos na parte alta da comunidade da Muzema, na Zona Sudoeste do Rio. Ouvir aquela frase dita com tanta naturalidade endossando a atividade me causou incômodo e estranheza, porque, para mim, som e imagem não se encaixavam.
Como esse símbolo pode representar a presença do Estado? Se a única presença possível do Estado na periferia é a incursão armada, a força e a morte; se a caveira é o único símbolo que chega, esse mesmo Estado já desistiu de ser direito para virar apenas ameaça.
As dinâmicas de violência no Rio de Janeiro, e em qualquer outro estado, não cabem em fórmulas prontas e engessadas, mas a cobertura midiática tradicional insiste em olhar para as favelas com o enquadramento errado e reduzi-las a símbolos simplificados e espetacularizados. Outro problema dessas narrativas, além do sensacionalismo, é a naturalização da negligência.
Dizer que a caveira é a presença estatal ignora a ausência deliberada de todas as outras bandeiras que deveriam ter chegado primeiro: a da escola pública de qualidade, a do saneamento básico, a da saúde, do transporte digno e da cultura. A insistência em celebrar ou tratar como normal essa chegada pela via bélica convence a opinião pública de que a favela não faz parte da cidade, mas é um território inimigo; seus moradores não são cidadãos, mas alvos em potencial, e que a periferia só merece a linguagem do rigor e da força.
Mas existe, sim, uma narrativa que se contrapõe ao enquadramento que insiste em colocar a favela sob os holofotes apenas pelo prisma do risco e da violência. Moradores, movimentos sociais e juventude trabalham incessantemente, por meio de manifestações culturais, atos de resistência e reivindicações de uma agenda positiva do Estado, para reconectar os territórios estigmatizados à cidade, promover sociabilidade, afetos e resgatar o pertencimento.
Arte e resistência nas favelas não são mero entretenimento; são instrumentos potentes e formas vivas de transpor o preconceito e provar que a periferia produz estética, cria linguagem e movimentos que nenhuma operação policial consegue sufocar. O beco que o telejornalismo retrata como campo de batalha é palco de criação e celebração.
A favela se comunica, consome e constrói suas próprias narrativas. Ignorar as periferias é continuar produzindo uma política pública cega, que só consegue enxergar a periferia quando ela sangra, e nunca quando produz vida. Enquanto a caveira for aceita como a principal representação do poder público na favela, o Rio de Janeiro continuará preso a um ciclo no qual o Estado negligencia direitos, a TV justifica a violência e a periferia paga a conta com o próprio sangue.
Wellerson Soares é coordenador de comunicação da Rede de Observatórios.*