Meninos negros: os pretos novos de um Brasil sem abolição
Por Nathália da Silva*
A comprovação de que vivemos em uma falsa abolição está na ausência de uma concreta liberdade e na privação sistemática do direito à vida. No Brasil de hoje, 3.104 pessoas negras foram mortas pelo Estado, de acordo com o relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã. Considerando que do montante 310 são crianças e adolescentes, se torna desafiador ser a continuação de um sonho tendo uma instituição que planeja seu fim. Através da violência, práticas do período colonial não permanecem no passado, mas se modernizam para impedir o futuro da população negra.
Durante o processo de colonização no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, os africanos recém-chegados eram chamados de pretos novos. Muitos não suportaram os maus-tratos na travessia do Atlântico e morreram pouco depois do desembarque. O ápice da falta de dignidade humana foi a ausência de um sepultamento adequado, criando uma exposição de restos mortais. Ao longo da análise de arqueologistas, ficou constatado que a maior parte das ossadas eram de crianças e adolescentes. O contexto confirma que a idade nunca foi um impedimento para a desumanização do Estado, e os dados comprovam isso.
Entre 2023 e 2025, a Rede de Observatórios registrou 850 mortes de crianças e adolescentes, de 12 a 17 anos, cometidas pela polícia em nove estados do Brasil. Os números não são suficientes para dimensionar a dor de um futuro interrompido e os traumas de famílias destruídas.
O domínio de territórios e o controle de corpos negros também fazem parte da manutenção da falsa abolição que segue amontoando e expondo novos pretos à morte por meio de operações policiais cruéis, avanço das facções e do encarceramento em massa. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 73% dos 12.203 adolescentes que cumprem medida socioeducativa em regime meio fechado são negros e 93% são meninos.
A persistência de uma política de morte violenta provoca um precoce ciclo de sofrimento. O enterro de Thiago Flausino, morto pela PM na Cidade de Deus aos 13 anos, teve a forte presença de crianças e adolescentes que, de certa forma, já tinham conhecimento dos riscos que sofriam por serem meninos negros e favelados. Foi buscando prevenir essa série de mortes violentas na adolescência que, em 2007, surge o Programa de Redução da Violência Letal contra Adolescentes, a partir do Observatório de Favelas. Espalhando-se por outras capitais brasileiras, a iniciativa priorizou o combate a homicídios de adolescentes na intenção de garantir o amanhã para jovens da periferia e não normalizar fatalidades.
Afinal, em um cenário tão desanimador e brutal para a juventude, apenas políticas públicas de prevenção e acolhimento podem transformar a realidade de adolescentes que estão em contexto de violência dentro de seus territórios. Nesse sentido, o Pronasci Juventude cumpre um papel indispensável na projeção de futuros nos quais o direito à vida seja possível.
No Encontro Nacional do Pronasci Juventude, ocorrido em Brasília, pude ver de perto uma juventude viva, que sabe narrar suas histórias, seja por meio da arte ou do cotidiano. Do Amazonas ao Rio de Janeiro, existem meninos e meninas que querem viver e ser livres, contrapondo todos os dados e estatísticas apresentados neste texto. Ser vizinho e participante das diferentes formas de violência molda um instinto de sobrevivência. Por isso, há a necessidade de fazer acontecer um Estado que humanize e ofereça outras possibilidades de existência no mundo.
Na medida em que o Estado fortalece o plano de extermínio de um futuro negro, adolescentes das favelas precisam ser acolhidos e priorizados para quebrar a lógica de morte e perseguição imposta aos seus corpos. Sobreviver não pode ser a regra, assim como viver não deve ser uma sorte. Uma nova história precisa ser inventada neste Brasil; e nesta versão, é urgente que os pretos novos transformem, sonhem e realizem.
*Nathália da Silva é jornalista e assistente de comunicação da Rede de Observatórios