Nos queremos vivas: a continuidade da violência contra mulheres, a sociedade que assiste e o Estado que falha
Por Fernanda Naiara, Francine Ribeiro e Tayná Boaes*
Estamos aqui por Maria de Lourdes, Tainara Souza Santos, Allane de Souza, Layse Costa Pinheiro, Evelin de Souza Saraiva, Laís Angeli e todas as mulheres vítimas de violência de gênero nas últimas semanas e todos os dias. A recente repercussão dos casos nos traz de volta, com brutal urgência, à constatação de um perigo cotidiano: o estado de vulnerabilidade em que vivemos simplesmente por sermos quem somos e por ousarmos viver com autonomia.
Tainara Souza Santos, jovem de 31 anos e mãe de duas crianças, foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro na capital paulista. O crime, arquitetado e executado por um homem com quem ela já não mantinha um relacionamento, resultou na perda de suas duas pernas. A tentativa de feminicídio foi agravada pela tortura em que, vagarosamente, suas pernas foram destruídas no asfalto. Ela foi abordada, cercada e submetida a uma violência carregada de uma mensagem perversa: sem ele, ela perderia sua autodeterminação — a própria possibilidade de ser quem era e de estar com quem desejasse. E, dali em diante, enfrentaria o sofrimento de não ter parte do corpo em uma sociedade capacitista. A combinação de violências contra Tainara nos impressiona e nos convoca a refletir sobre a persistência da violência contra as mulheres.
Assim como os casos monitorados pela Rede desde 2019, tais crimes escancaram um problema que não se limita à ação criminosa em si, mas envolve toda a sociedade. Especialmente aqueles que estavam no bar onde Tainara foi abordada por seu algoz: ninguém impediu o início do crime. Enquanto era arrastada, pessoas filmaram de dentro de seus carros, mas não intervieram nos primeiros metros. Um quilômetro em uma avenida importante e movimentada de São Paulo significa muito tempo de sofrimento e, ao mesmo tempo, evidencia a sintomática conivência do coletivo.
Um ditado popular se confirmou na prática: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher!”, quando não houve ação do Estado e ninguém agiu em defesa de Tainara. Ela estava só, e seu agressor com total liberdade – na certeza de que sua vontade seria imposta de um jeito ou de outro. O machismo vence ano após ano, a cada novo relatório, quando observamos os números de violência contra a mulher crescerem gradativamente. Segundo o “Elas Vivem: um caminho de luta”, entre 2023 e 2024, o aumento foi de 12,4% nos nove estados do Brasil que compõem a Rede. Apenas em 2024 foram 531 mulheres assassinadas.
Em sua quinta edição, nosso relatório reafirma a necessidade de questionar os dados produzidos sobre violência contra as mulheres. Não basta apenas contabilizar os números, é preciso compreendê-los representando vidas em suas complexidades. Queremos saber quantas sofreram violências, mas também quais violências, em quais circunstâncias e por quais motivações. Sabemos que a naturalização da violência alcança mulheres negras e indígenas de forma diferente, por isso contamos histórias e lembramos de seus nomes.
Casos de crueldade e profundo desprezo por corpos feminilizados, como o ocorrido em São Paulo, não são isolados, eles se repetem por todo o Brasil. No início deste ano, uma mulher indígena da etnia Baré, de 44 anos, foi vítima de feminicídio, após recusar ser assediada, e mesmo após morta, teve o corpo novamente violado. É simbólico lembrar que, no mesmo ano, acompanhamos também o apagamento do feminicídio de Julieta Hernández, enquadrado apenas como latrocínio, justamente quando a Lei do Feminicídio completou 10 anos de existência.
A perversidade é uma marca da violência contra as mulheres no Brasil, uma vez que a repetição de práticas de desfiguração corporal, decapitação e espetacularização do sofrimento ganham cada vez mais presença no cotidiano. No Ceará, em 2018, três jovens foram decapitadas com um facão cego enquanto eram filmadas e expostas em grupos do WhatsApp. A dinâmica de domínio territorial pelos grupos armados expressa sua força também a partir da forma como matam mulheres no Estado. A punição reservada e exercida contra as meninas e mulheres tem contornos de produção de sofrimento que não se esgota na morte. Uma prática também conhecida localmente é ter os cabelos raspados por transgredir alguma regra moral, muitas vezes relacionada aos envolvimentos afetivos, evidenciando como a expressão da feminilidade pelos cabelos longos pode ser objeto de fazer sofrer. Quando em 2025, Lorena Ferreira, de 18 anos, foi decapitada no município de Trairi, após resistir ao assédio sexual de um homem de 62 anos, nos indignamos com a brutalidade que marca a vida das mulheres e as sentencia à morte, pois mesmo em diferentes dinâmicas de violência, a crueldade presente no feminicídio é o reflexo de um cotidiano que as submete a um estado de alerta.
Entre 2018 e 2025, observamos tanto o aumento dos feminicídios quanto o aprofundamento das violências que interseccionam raça, etnia, classe e gênero, mesmo com mudanças nas dinâmicas do crime e das políticas de Estado, o direito à vida não é garantido. Assim como quando monitoramos em 2024 o maior número de eventos violentos contra as mulheres no Ceará em sete anos, em que a naturalização da misoginia segue em curso nas relações sociais. Mulheres trans também são atingidas por crimes bárbaros nos transfeminicídios, por isso lembramos de Dandara dos Santos, agredida até a morte na cidade de Fortaleza, em 2017. O assassinato de Dandara é um marco histórico pela brutalidade, mas também por enfatizar a necessidade de compreensão de uma sociabilidade letal que naturaliza a violência em busca da manutenção de lugares de poder distribuídos de forma privilegiada para a cisheteronormatividade branca.
Entre as lutas políticas pelo reconhecimento do crime de feminicídio no sistema de justiça, essa persistência da violência no cotidiano nos aponta outro desafio: os encaminhamentos para a rede de proteção à violência contra mulheres estão diretamente relacionados às condições dos territórios onde vivem. Fazer uma denúncia custa caro, econômica, social e emocionalmente. As mulheres enfrentam a escassez de delegacias especializadas, dependem de medidas protetivas que, muitas vezes, são descumpridas pelos agressores, e veem que a comoção pública, por si só, não garante quaisquer tipos de responsabilização. Seja no Amazonas, no Ceará, ou em São Paulo, as condições de proteção às mulheres ainda são muito precárias. A concentração dos serviços nas capitais e a revitimização que acontece nos equipamentos do Estado afasta a possibilidade real de proteção às mulheres e responsabilização dos agressores.
Na prática, o aumento de penas ou a previsão de punições mais severas não interrompem a violência sistemática que atinge mulheres e meninas. Medidas exclusivamente punitivas são insuficientes e não ensinam como enfrentar uma violência que é estrutural, atravessada por desigualdades, racismos, pobreza, barreiras geográficas e ausência de políticas públicas eficazes, que se reproduzem de maneira sofisticada. Todos os anos insistimos em sistematizar e analisar os dados sobre violência contra as mulheres através do relatório Elas Vivem, como uma forma de traduzir o cotidiano em números e memórias que orientem ações de proteção à vida das mulheres e responsabilização dos autores de crimes contra mulheres.
*Fernanda Naiara, Francine Ribeiro e Tayná Boaes são pesquisadoras da Rede de Observatórios, respectivamente, nos estados do Ceará, São Paulo e Amazonas