O Marajó me ensinou o que ninguém mais pôde
Lucas Moraes*
Levo um dia para chegar de Belém ao município de Melgaço, em uma travessia de barco que, por si só, já constrói uma experiência e me leva a pensar que o Estado não percorre essas águas para trazer políticas públicas e melhorias à comunidade, mas não mede distância para levar violência policial e tentativa de apagamento da história. Segundo o Observatório do Marajó, os primeiros meses de 2025 registraram 37 operações, que resultaram na detenção de 56 pessoas e 4,6 kg de substâncias ilegais apreendidas. O resultado não se traduziu em segurança à população, mas em criminalização da pobreza, punição aos elos mais frágeis da cadeia e reforço do ciclo da violência.
Em Melgaço chego para ficar três dias, participar do segundo encontro do Projeto Tajá, do qual já havia participado ano passado, em Salvaterra, e contribuir com a formação e o fortalecimento de lideranças, criando um espaço de debate qualificado sobre segurança pública, comunicação e políticas sobre drogas, temas de grande relevância diante da realidade vivida nas comunidades. Me junto a líderes, coletivos e organizações tradicionais marajoaras, de seis municípios do arquipélago, e a integrantes do Observatório do Marajó, em rodas de conversa, leituras de textos, momentos de debate e escuta das lideranças e organizações presentes. Cada espaço permitiu uma maior aproximação entre os participantes, fortalecendo a confiança e a união em torno da defesa dos seus direitos.
Além disso, parte inerente ao trabalho com a Rede de Observatórios é estar in loco e poder contar as experiências de quem vive o contexto de segurança e direitos humanos nas regiões onde estamos presentes ou temos parceiros. Nas visitas a comunidades tradicionais quilombolas e ribeirinhas, as constatações sobre a atuação do Estado são graves e reforçam o que vinha pensando a caminho de Melgaço sobre as águas. Ouvi inúmeros relatos que mencionavam diferentes formas de violência praticadas pelo próprio Estado contra essas populações. Violência física e psicológica, crimes socioambientais, ineficiência em garantir a proteção, contrabando de madeira, envenenamento do solo, grilagem de terras e outras ações que intensificam a vulnerabilidade das comunidades tradicionais são as marcas do poder público no território.
Também vi um povo consciente da importância de manter os costumes, a cultura e a organização coletiva para sobreviver aos atravessamentos do Estado, sobretudo na vontade de construir ideias para políticas públicas e na consolidação de estratégias de incidência política capazes de enfrentar as desigualdades históricas e as violências estruturais que marcam o território marajoara. Participar ativamente dessas experiências me proporcionou um aprendizado inigualável, bem como uma vivência prática de resistência e de luta coletiva, fundamentais para pensar a transformação social a partir da realidade local.
Lucas Moraes é pesquisador do Observatório do Pará