O ódio no ambiente escolar nos tirou Alícia
Por Nathália da Silva*
O rosto de uma menina negra estampando capas de jornais, acompanhado de uma péssima notícia, é sempre impactante e me revira por dentro. É duro começar a semana sabendo da morte de Alícia Valentina, de apenas 11 anos. Cresce a desesperança e a sensação de impotência ao constatar que o ambiente escolar interrompeu a vida de uma jovem. Ela morreu quatro dias após ser espancada no banheiro da Escola Municipal Tia Zita, no sertão de Pernambuco. O ambiente escolar no Brasil sempre suscitou preocupação por permitir a reprodução de problemas que estruturam a sociedade. Nele estão embutidos o machismo, que impactou a trajetória de Alícia da pior maneira, pelas mãos de um adolescente tão jovem quanto a vítima.
Desde 2001, a violência em âmbito escolar provocou 47 mortes em todo Brasil, de acordo com Ministério de Direitos Humanos e Cidadania. O caso de Alícia é um triste exemplo de vitimização e revitimização. Ela estava desprotegida no ambiente escolar, foi agredida, acuada, e sofreu com inúmeras falhas no atendimento de saúde. Ela passou por três hospitais, foi liberada duas vezes com indicação de nenhuma gravidade até identificarem um traumatismo craniano. Uma convergência de erros evitáveis, de vários atores.
Alicia era descrita como uma doce menina e querida por todos no bairro Belém de São Francisco. Sonhava em ser modelo e era sempre obediente aos professores.
Instituições de ensino têm sido um espaço de reprodução de comportamentos nocivos. Em uma sociedade marcada pelo machismo e pelo patriarcado, o “não” de uma menina ou mulher exige muita coragem, pois vai contra a sensação de superioridade masculina, o sentimento de posse e tenta preservar suas escolhas. Dinâmicas de violência contra mulheres são validadas e, consequentemente, invadem os muros das escolas e faz com que crianças e adolescentes reproduzam posturas inaceitáveis.
“Enquanto a segurança não for entendida como um direito interligado a outros — como educação, cultura, saúde e moradia — tragédias como a que vitimou essa criança de 11 anos seguirão acontecendo. Precisamos direcionar recursos e esforços para construir outro modelo de sociabilidade, que não passe pela violência como temos visto até aqui. Cada vez que um episódio assim ocorre, somos convocados a refletir sobre o que temos feito para proteger nossas crianças — e a resposta, infelizmente, tem sido insuficiente. Nesse caso, falhamos como sociedade”, disse Edna Jatobá, coordenadora do Observatório da Segurança de Pernambuco e fundadora do Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares.
Considerando a adolescência como fase de construção de personalidade, o fácil acesso a conteúdos que disseminam o discurso de ódio a mulheres fortalece a formação de uma masculinidade tóxica, atualmente identificada com a “cultura red pill”. A ideologia prega que os homens são superiores às mulheres em diferentes aspectos e trata o feminismo e iniciativas de luta por igualdade de gênero como ações de opressão aos homens.
Reinventar as escolas e deixar de lado a manutenção das opressões neste espaço deve ser uma meta para garantir a segurança no aprendizado e desenvolvimento e preservar vidas. A escola deve ser o lugar para contrapor narrativas de ódio e estimular o respeito. A educação precisa reconhecer todos os sujeitos como pessoas com os mesmos direitos, como tem afirmado Barbara Carine, idealizadora da Escola Afro-Brasileira Maria Felipa. Assim, outras meninas terão a oportunidade de dizer sim para uma vida respeitosa e cheia de possibilidades. Enquanto comportamentos maldosos e falas ofensivas forem tratados como males da idade, não avançaremos na proposta de uma educação verdadeiramente inclusiva e emancipatória.
O caso de Alícia precisa mostrar de uma vez por todas a importância das escolas assumirem um papel de formação crítica para alunos e alunas. Faz parte do conceito de educação a reconstrução de uma nova perspectiva de sociedade, que recusa comportamentos violentos e discriminatórios . Discutir masculinidades, adultização e igualdade de gênero em espaços de educação é urgente para que casos como esse não se repitam.
*Nathália da Silva é jornalista e assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança