O racismo não pode vencer o diploma
Por Nathália da Silva*
Enquanto uma criança negra que estudou a vida inteira em escolas particulares, reconheço as diferentes camadas do preconceito racial neste espaço de ensino. Isso não se resume a ser uma das poucas pretas da turma, mas se amplia em uma estrutura que estranha a presença de corpos que fogem do padrão daquele espaço. Episódios recentes de racismo contra crianças em sala de aula me trazem um questionamento que coloca o futuro e o presente em cheque: quais os impactos do racismo escolar no futuro de pessoas negras?
No fim de março, uma criança foi chamada de macaca na Escola Municipal Forte dos Reis Magos, em São Paulo. A irmã mais velha tentou defendê-la e levou um soco de um menino. O aluno que cometeu a agressão só foi transferido de escola por conta de um pedido de seus pais, segundo a Secretaria Municipal de Educação. As vítimas estão sendo acompanhadas por psicólogos. Há muitos anos, minha irmã mais velha também levou um soco após um desentendimento com um colega branco em sala de aula. Na época, a escola se posicionou displicentemente, responsabilizando o aluno com apenas um dia de suspensão. O desgaste da convivência entre os dois e a falta de apoio da instituição fizeram com que mudássemos de escola no ano seguinte.
Não foi nosso caso, mas o preconceito racial é um dos principais fatores para evasão escolar no Brasil, sendo responsável por 3 a cada 5 jovens abandonarem os estudos antes do ensino superior, segundo a pesquisa realizada pela British Council. Somado ao racismo, a desigualdade financeira e a violência também contribuem para a interrupção dos estudos. Considerando a realidade das favelas e periferias, crianças e adolescentes têm o trajeto até o colégio constantemente atravessado por confrontos. Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, cerca de 190 mil crianças tiveram o caminho de casa à escola afetado por interrupções no transporte público causadas por tiroteios na cidade.
Crescemos ouvindo que precisamos estudar para ser alguém na vida, mas assistimos crianças e adolescentes tendo a trajetória interrompida na tentativa de acessar o ensino, como Marcus Vinícius, que há oito anos foi morto por policiais enquanto ia para a escola. Assim como ele, Maria Eduarda foi outra fatalidade. Em 2017, ela foi atingida no pátio de uma escola municipal da Pavuna. O último relatório Pele Alvo, da Rede de Observatórios, mostrou que 297 crianças e adolescentes foram mortos pela polícia em 2024. Assim, o Estado tem arrancado os sonhos de famílias que acreditavam nas escolas como um lugar seguro para os filhos.
Com a insegurança no ambiente escolar, no trajeto, a falta de políticas públicas que incentivem a permanência e oportunidades escassas, faz com que, não por acaso, nas periferias, o varejo de drogas seja um atrativo para quem busca dinheiro fácil e sensação de poder. O jornal O Globo acompanhou dez adolescentes envolvidos no tráfico de drogas no Rio de Janeiro durante um ano; seis já foram mortos. A maioria ingressou no tráfico entre 13 e 15 anos, ocupando funções nas bocas de fumo e cometendo crimes fora da favela.
E mesmo quando se consegue “vencer” pelos estudos, corpos negros seguem vulneráveis à violência policial. A morte da médica Andréa Marins, ocorrida em Guadalupe, ilustra bem este cenário. A criminalização da população negra ignora o diploma. O que importa é o território, o carro que um negro jamais poderia ter, a cor do cabelo, a blusa de time e outros estigmas que mantêm o fato de pessoas negras serem 86% das vítimas de violência policial nos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança.
*Nathália da Silva é assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança