Proteger mulheres é a grande prova de resistência do BBB
*Por Nathália da Silva
Toda polêmica é pouca para o Big Brother Brasil, e a 26ª edição começou sinalizando, mais uma vez, a falta de proteção e a vulnerabilidade que as mulheres sofrem dentro e fora do reality. A importunação sexual sofrida pela advogada Jordana Morais na casa mais vigiada do país mostra que a impunidade e a vontade masculina continuam sobrepondo o consentimento e o respeito. Nem mesmo as câmeras inibiram o comportamento nocivo do participante Pedro Espindola. E não foi a primeira vez que uma mulher foi violentada no reality show mais assistido do país.
Na edição 16, Ana Paula Renault estranhou atitudes do participante Laércio, que meses depois foi preso por estupro de vulnerável e armazenamento pornográfico envolvendo uma adolescente de 13 anos. À época com 53 anos, ele confidenciou dentro da casa que ficava com meninas de 16 anos. Com essa informação, a jornalista ficava atenta e criticava os olhares e gestos dele para outras mulheres da casa. Na época, Ana Paula foi chamada de exagerada por pessoas da casa e pelo público.
No BBB 23, os participantes MC Guimê e Cara de Sapato foram expulsos por tocarem indevidamente em Dania Mendes, mexicana que fazia um intercâmbio no programa. Em momentos diferentes de uma festa, um passou a mão no corpo da mexicana sem permissão e o outro tentou beijá-la à força. A todo momento ela tirava a mão de Guimê do seu corpo e tentava se afastar dos beijos de Sapato.
Para além das violações que sofreu, Dania precisou lidar com comentários maldosos. Em um programa de TV, um apresentador chegou a questionar o fato de ela seguir do lado de Guimê após os toques indesejados. Segundo ele, ”ela não parecia estar tão incomodada”.
Aliás, é comum, e inaceitável, que em casos de violência sexual vítimas sejam culpabilizadas. A repercussão de estar na casa mais vigiada do Brasil amplia ainda mais esses comentários. Foi assim com Monique Amin, do BBB 12, julgada por estar bêbada no momento em que sofreu uma violação sexual de outro participante debaixo do edredom.
Na edição atual, Pedro já vinha apresentando comportamentos problemáticos na casa em relação a mulheres. Em diferentes momentos, ele expôs traições, a esposa, além de já ter dito a outros brothers que não se aproximava de Jordana, pois lembrava muito sua companheira, e queria “evitar uma atração”. Mas o ex-participante não parou por aí e chegou a esconder peças íntimas de colega de confinamento sem a permissão da sister.
Esses sinais que poderiam acender um alerta sobre a postura do jovem em relação a mulheres foram naturalizados ou entendidos como transtorno mental, e até mesmo motivo de piadas. As violações também começam em comportamentos sutis que demandam atenção e cuidado com quem pode ser vítima.
A importunação sexual é configurada nos beijos forçados e toques indesejados. Por dia, o Brasil recebe mais de 100 denúncias desse crime, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Nesta edição, alguns brothers afirmaram que estavam com pena de Pedro. A idade, a origem humilde e as oportunidades perdidas foram justificativas e lamentos que contribuíram para relativizar o crime. Tal postura gera revitimização. Como se não bastasse o abalo físico e emocional, mulheres precisam lidar com a vulnerabilização, culpabilização e objetificação de uma vez só. Assim, homens são sempre compreendidos, protegidos e dignos de solidariedade, enquanto elas são interpretadas como causadoras do problema.
O BBB reflete o cotidiano, mas do lado de fora não há câmeras. As leis e as políticas públicas precisam ser reguladoras de maneira efetiva e asseguram os direitos das mulheres existirem sem serem ameaçadas.
*Nathália da Silva é jornalista e assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança