Quando a violência entra em campo, o retrocesso ganha ponto
Por Nathália da Silva
Os primeiros meses de 2026 escancararam uma realidade que o esporte insiste em não superar. Em diferentes modalidades e posições dentro de campo, episódios de racismo, machismo e transfobia voltaram a expor que a violência também é parte do jogo. Não se trata de casos isolados ou exceções, mas de um acúmulo que, ainda no início do ano, evidencia que o campo esportivo segue sendo um território em disputa, onde o preconceito tenta impor barreiras e o direito de permanecer precisa ser constantemente defendido.
“Nada do que aconteceu hoje é novo na minha vida”. Essa é uma das frases que acompanha o posicionamento de Vini Jr. após mais um caso de racismo em campo. De fato, o preconceito racial nunca é uma novidade para pessoas negras. Desde a infância estamos vulneráveis a situações que utilizam o tom da pele como instrumento de menosprezo e desrespeito. Não à toa o jogador denunciou 20 casos de racismo em oito anos de clube.
Antes de tudo, é importante destacar que Vinicius Júnior é um homem negro, criado em São Gonçalo, de origem humilde. Naturalmente, ele carrega as características daqueles que são majoritariamente exterminados pela violência armada. No Rio, negros tem 4,5 mais chances de serem mortos pela polícia, segundo o relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta. Foi através do esporte que Vini pôde construir uma história diferente dos seus semelhantes. No entanto, o racismo atravessa fronteiras e persegue vivências negras em diferentes esferas.
Cerca de 41% dos jogadores brasileiros já sofreram racismo e 53% acreditam que os estádios são os ambientes mais nocivos para essa prática, de acordo com o Levantamento sobre a Diversidade no Futebol Brasileiro. Inclusive, o próprio treinador do clube português Benfica, José Mourinho, afirmou que Vini teria provocado a reação e até mesmo entendido errado, na intenção de defender seu jogador Gianluca Prestianni, que chamou o brasileiro de macaco.
O racismo nunca é um mal-entendido. Afirmar que uma pessoa provoca o racismo é retirar a humanidade de identidades negras que são expostas a xingamentos, agressões e mortes todos dias. Não há desejo em receber uma violação que há séculos deixa marcas no corpo e na mente. O que existe é a repulsa por justificativas mal dadas, punições superficiais que permitem a continuidade de um jogo em que os negros sempre perdem.
Os estádios funcionam como espaço de reprodução de preconceitos e estigmas presentes na sociedade. Algumas ações denotam um retrocesso em um meio que tem ferramentas para avançar em pautas significativas. Exemplo disso são as declarações de Gustavo Marques, do Bragantino, após a derrota para o São Paulo. O jogador afirmou que a partida era grande demais para ser apitada por uma mulher, se referindo a árbitra Daiane Muniz. Para ele, o problema não foi a decisão, mas o fato de ser uma mulher ocupando aquela posição. O questionamento da competência técnica com base exclusivamente no gênero revela como árbitras são constantemente ofendidas, invalidadas e assediadas por jogadores, torcedores e até por membros das comissões técnicas.
É como se a presença feminina em campo sempre exigisse vigilância e controle sobre sua autoridade e legitimidade. No handebol, em 2021, jogadoras da seleção feminina da Noruega foram multadas após se recusarem a jogar de biquíni. O episódio mostra o que está em disputa é quem define as regras e quais corpos são considerados legítimos no esporte.
Junto às violações sofridas por Daiane Muniz e Vini Jr., ainda em 2026, a presença em quadra da jogadora trans, Tifanny Abreu, voltou a ser alvo de tentativa de proibição no vôlei. Uma legislação da Câmara de Londrina impedia a participação da atleta em partidas oficiais por conta da identidade de gênero. Os argumentos se baseiam na ideia de que mulheres trans teriam vantagens físicas injustas em um time feminino. Graças a uma ação do Supremo Tribunal Federal, ela está de volta.
No país que mais mata pessoas trans no mundo, o retorno de Tifanny revela o quanto o esporte é também um espaço de reconhecimento social. Sua presença em quadra desafia uma lógica histórica que exclui pessoas trans dos espaços, negando sua identidade e legitimidade. Em quadra, ela não apenas exerce a profissão, mas afirma que pessoas trans têm o direito de existir e ocupar espaços com dignidade.
Racismo, machismo e transfobia operam como mecanismos de exclusão, que transformam o campo esportivo em palco de reprodução das desigualdades sociais. Enquanto essas violências persistirem, o discurso de igualdade no esporte será apenas fantasioso. O enfrentamento não se dá por pausas em partidas e notas de posicionamento simbólicas, mas sim como uma condição essencial para que o esporte avance de fato como espaço democrático e comprometido com os sonhos e direitos de quem faz o jogo acontecer.