Se não eu, quem é que vai ser sua nova heroína?
Por Nathália da Silva*
“Hoje só vai dar mulher”, foi a frase que ouvi assim que cheguei à Fundição Progresso para o show de aniversário da rapper Duquesa. Na fila ao lado, uma menina reparou que a fila de revista masculina estava praticamente vazia. Esse fato me levou a observar como gênero e música se relacionam e impactam no cotidiano de quem vive a verdade cantada por artistas negras. Além das unhas decoradas, longas laces e clipes muito bem feitos, a presença feminina no rap tem entregado autoestima e identidade para as jovens e adolescentes da favela.
No fone de quem vive o silenciamento e o apagamento que o racismo traz, as vozes que exaltam o cabelo, a pele e o território mudam perspectivas e oferecem a oportunidade de reconstruir uma história diferente do que está imposto no roteiro de vida de meninas periféricas. Algo distante de gravidez precoce, do convívio com a violência armada e do feminicídio. Artistas como Ajulia Costa, Mc Luanna, Tasha & Tracie, Nanda Tsunami, Afreekassia e muitas outras falam no mesmo tom dos morros e vielas e ajudam a pensar sobre independência financeira, autoconhecimento e poder.
Essa poderia ser só uma revolução estética se não fossem os dados de violência de gênero. O relatório Elas Vivem: a urgência da vida revela que, a cada 24 horas, ao menos 12 mulheres são vítimas de algum tipo de violência. A misoginia cerceia a liberdade e faz com que ser mulher vire pena de morte. Não é à toa que 546 feminicídios e 7 transfeminicídios foram registrados em um ano em nove estados brasileiros. Cárcere privado, agressão física e estupro estão entre as principais qualificadoras. Parceiros e ex-parceiros correspondem a 56% dos autores de violência, segundo a pesquisa.
Assim, a música desperta atenção para comportamentos que podem passar despercebidos em determinado contexto. Quando Mc Luanna diz “amiga, esse homem te apaga”, ela se dirige às vítimas de violência psicológica, que corresponde a 49% das violações registradas pela Central de Atendimento à Mulher. A ausência de agressão física não é sinal de estabilidade nas relações. Outras formas de controle citadas na música, como proibir momentos individuais, julgar os sonhos e criticar as roupas, constroem um domínio que devasta a vítima silenciosamente.
Vale ressaltar que, quando interligamos raça e gênero, os dados demonstram o agravamento do problema. Em dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança, 62,6% das vítimas de violência de gênero são mulheres negras. Tendo em vista as dinâmicas do poder paralelo e a falta de um espaço de acolhimento nas comunidades, as medidas protetivas podem não ser suficientes para garantir a segurança das vítimas.
Em Big D, Duquesa aponta que suas condições enquanto mulher negra a colocam numa posição desprivilegiada no mercado da música e dá dez dicas para meninas como ela. A segunda dica é crucial para poupar mulheres da situação de violência: “amor não vem do bolso, então foca nos seus projetos”. A falta de autonomia financeira é uma das principais motivações de manutenção de relações abusivas. De acordo com uma pesquisa da UnB, seis em cada dez mulheres permanecem em relacionamentos violentos devido à dependência econômica.
Além de perder o brilho, mulheres em situação de violência perdem a identidade. O medo, a culpa e a falta de esperança moldam comportamentos que destoam da verdadeira personalidade da vítima. Por isso, na música “Você Parece Com Vergonha”, Ajulia Costa faz uma pergunta simples, mas que faz a diferença em um contexto no qual a população feminina está sempre vulnerável a violações, dentro ou fora de casa: “Cadê sua postura? Seu estado de alerta?”
Em um cenário de ausência de políticas públicas efetivas, ouvir mulheres negras da cena do rap se torna uma ferramenta de combate ao ciclo de violência de gênero. As meninas das periferias do Brasil têm utilizado a música e o protagonismo para denunciar suas dores e ajudar no processo de cura de outras jovens que tiveram ou ainda têm a trajetória impactada por diferentes tipos de abuso. Com o som alto e ouvindo as palavras certas, será possível fortalecer mentes extraordinárias e brilhantes, como canta Ebony.
*Nathália da Silva é assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança