Segue o baile: o som de preto e favelado incomoda mais que o extermínio nas favelas
Por Nathália da Silva*
Desde a década de 1980, os bailes funk são ponto de cultura e lazer dos territórios favelados. Os passos marcados, as faixas penduradas nas casas de show e as galeras marcaram gerações de juventude. Em datas comemorativas, tudo fica mais intenso. Dezembro chegou e com ele os bailes de Natal e Ano Novo. Para a população favelada, essa é a oportunidade de conferir shows de grandes artistas no próprio território. Mas para o Estado, os bailes são o epicentro da apologia ao crime.
Para chegar no 150 BPM de hoje, o movimento do funk precisou se reinventar e sobretudo resistir aos estigmas que reduzem a expressão cultural à criminalidade. Os bailes de corredores, que tinham brigas e disputas entre pessoas de localidades diferentes, eram a justificativa para perseguição aos bailes, na década 90, a partir do entendimento de que esses jovens favelados eram perigosos. Foi nessa época que os veículos de comunicação passaram a relacionar funk e a juventude favelada ao tráfico de drogas.
Foi preciso romper com a marginalização imposta a partir desses tipos de baile e fortalecer as batidas como denúncia das mazelas e desigualdades vividas nas favelas. De todo modo, o preconceito contra a cultura favelada ainda é uma realidade. A prova disso é a proposta da Lei Anti-Oruam, que proíbe o uso de recursos públicos para contratar artistas que façam apologia ao crime organizado, espalhando-se rapidamente por todo Brasil.
Os parlamentares que apoiam têm como justificativa um suposto incentivo ao uso de drogas nas letras. Mas sabemos que o fato do artista Oruam ser filho do Marcinho VP, preso há 29 anos e conhecido como um dos líderes do Comando Vermelho, também faz parte dos argumentos. Esse tipo de movimentação política tal qual a CPI dos Pancadões, que pretende reforçar a fiscalização de perturbação do sossego especialmente contra os bailes de São Paulo, sustenta a violência policial contra a juventude em eventos de periferias.
Foi por meio da criminalização do funk que, há seis anos, nove jovens foram mortos por policiais no Baile da DZ7, tradicional baile de rua da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O governador da época, João Dória, já tinha se colocado contra a realização da festa e declarado que o evento era “uma praga”. A visão construída a partir do preconceito racial é que quem frequenta baile funk é drogado ou bandido, o que justificaria tais assassinatos. O Estado tem inúmeras formas de se movimentar para promover cultura e espaços de lazer nas favelas, mas escolhe se fazer presente por meio de leis incoerentes e confrontos intermináveis.
Enquanto isso, é o movimento do funk que fortalece e encaminha jovens para o meio artístico, seja por meio da composição ou dos grupos de passinho. São os pancadões que escancaram a criatividade favelada de um povo que dança e cria gambiarras para espalhar cultura em meio a tanta violência.
O funk empodera meninas e mulheres a serem independentes e apreciarem seus desejos e vontades. Apesar do forte debate de valores sociais e posicionamentos em meio aos batidões, o cenário não é perfeito. O caso Sther Barroso, morta por um varejista de drogas após se recusar a ter uma relação casual com ele em um baile, mostra que o machismo ainda está em todos os espaços, e por isso é importante continuar cultivando essa festa como um lugar de respeito, liberdade e resistência para todas as pessoas.
A criminalização do funk interessa a quem tem vontade política de permanecer com ideais racistas de menosprezo a cultura e invenções negras. A capoeira, o samba, o rap, o hip hop também geram incômodos e não é por coincidência. É racismo! Já passou da hora de o Estado ter um olhar cuidadoso para produções da favela e para essa gente que só quer ser feliz e andar tranquilamente na favela onde nasceu.
*Nathália da Silva é assistente de comunicação da Rede de Observatórios