Uma vida que acaba, os sonhos que morrem: caso Mizael e a impunidade na brutalidade policial
*Nathália da Silva
Se estivesse vivo, Mizael Fernandes teria 18 anos completos. O menino foi morto por policiais em 2020. Cinco anos depois, a família lida com diferentes camadas de impunidade e injustiça. Em 2023, a tia do menino, Lizângela Rodrigues, desapareceu. Ela era a única testemunha do caso. Até hoje, as investigações não esclareceram seu sumiço. Além disso, a família convive com traumas e instabilidade na saúde mental. Problemas como depressão e ansiedade passaram a ser tratados entre as irmãs mais novas e a mãe de Mizael.
O isolamento social foi a principal medida de controle contra a disseminação do Coronavírus. Para além de lavar as mãos e higienizar alimentos, ficar em casa parecia ser a melhor opção para quem queria se proteger. No entanto, a norma não foi o suficiente para frear a violência policial.
Foi dentro de casa que o menino Mizael teve a vida interrompida pelo Estado em Chorozinho, interior do Ceará. A ida dele para casa da tia era uma alternativa de cuidado da mãe para tratar uma alergia que havia desenvolvido dias antes. Naquela mesma semana, o jovem ganhou do tio o cavalo Pé de Pano, o primeiro passo para realizar o grande sonho de ser vaqueiro. Em umas das últimas ligações para a mãe, contou o quanto estava feliz pelo presente. Um sonho que foi embora junto de tanta vida e realizações para o menino.
Numa noite, enquanto Mizael e sua família cumpriam o isolamento social, a violência bateu na porta. Três policiais entraram na residência e atiraram no menino, que dormia.
“O último perito que veio fazer a perícia chorou. O Mizael estava dormindo e acordou com um tiro. Eles beberam água, lavaram as mãos na pia, fizeram limpeza no quarto e ainda levaram um cobertor. Cheguei a questionar se existe Deus. Por que Deus deixou levar meu filho? Ainda falaram que ele estava armado. A todo tempo buscavam incriminar meu filho. Hoje eu vivo de remédios. Por causa deles, meu corpo mudou, minha vida mudou. Graças a turma dos movimentos de mães, eu fui salva. Mas me sentia acabada, destruída. Meu filho era muito carinhoso”, relembra Leidiane, mãe de Mizael.
Como se não bastasse, neste ano, o Ministério Público do Ceará afirmou que o policial que atirou em Mizael agiu em legítima defesa. Que perigo uma adolescente de 13 anos, dormindo, oferecia a um agente do Estado? Nem mesmo a mudança na cena do crime para diminuir a culpa dos envolvidos foi reconhecida como fraude processual. A decisão foi mais uma autorização do Estado a favor do extermínio e da falta de postura policial em áreas distantes da capital.
Graças aos movimentos de mães e familiares e iniciativas voltadas ao direito de crianças e adolescentes, a Justiça negou o pedido do Ministério Público e os PMs envolvidos vão a júri popular. Apesar do tempo e da demora na resolução, Leidiane ainda tem expectativa de que os policiais sejam responsabilizados. Afinal, em um cenário de tanta tristeza, a esperança é o que sustenta.
“Ele não tinha nenhum envolvimento. Eu quero que a justiça seja feita. Que eles percam a farda e parem de trabalhar. Meu sonho é sair a notícia que eles foram presos. Não vejo a hora de marcarem a data do julgamento. Eu espero muito por isso”, afirma Leidiane.
No Ceará, a cada três dias uma pessoa é morta pela polícia. Cerca de 80% dos mortos têm entre 12 a 29 anos, de acordo com o relatório Pele Alvo: mortes que revelam um padrão. Um projeto de segurança pública falido que naturaliza a letalidade e precisa ser urgentemente desmontado.
Rever esse cenário é responsabilidade do governo e uma exigência ética, social e histórica. Não há justiça possível sem o fim da política de morte que assola jovens negros. O extermínio da juventude mata sonhos e interrompe histórias que não podem ser apagadas.
*Nathália da Silva é assistente de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança