Vidas em exposição e a besta fera humana
Por Wellerson Soares*
É fascinante constatar que a história humana, suas construções e obras são vivas e, sempre que revisitadas, é possível fazer uma releitura ou ser capturado por eventos que antes não tiveram o devido valor. Mas também é assustador entender que algumas dinâmicas e comportamentos cruéis nunca mudaram. Essa constatação amarga guiou meus pensamentos após as cenas de abertura e de encerramento do filme “Beco do Pesadelo”, do diretor Guillermo del Toro.
Diante de olhares atentos em um circo dos anos 1940, a trama mostra um homem, chamado de “besta fera humana”, encarcerado e apresentado como a principal atração circense: uma figura degradada, desumanizada e reduzida a um espetáculo de miséria. Aquelas cenas chocantes me conectaram à lembrança da primeira vez em que estive no sistema prisional, aos quatro anos, visitando um tio, preso ao ser pego com uma arma em um ônibus da linha Caxias x Central do Brasil, em 1999. Lembro de vê-lo, e os outros homens encarcerados, perfilados como em exibições de zoológico.
Essa justaposição, do besta fera circense de 1940 e a visão do tio encarcerado em 1999, me levaram a conectar o comportamento da sociedade no longa e na realidade, e me revelaram uma continuidade perturbadora na forma como a sociedade estabelece e exibe seus “outros” e seus “monstros”. A lógica da objetificação e do controle social não é um evento isolado da ficção de Del Toro ou de memórias pessoais; ela é uma estrutura fundadora do nosso país.
O caso da “exposição antropológica” de 1882 no Museu Nacional é a prova disso. Ali, a ciência e o espetáculo uniram-se para objetificar e expor corpos não-brancos (indígenas) como o “primitivo”, o “selvagem” que a civilização branca deveria superar. Essa exposição de pessoas como “amostras” ou anomalias é o mesmo impulso sádico que levou o público a se chocar e se divertir com a “besta fera humana” no circo, ou quando pessoas, geralmente negras e periféricas, são presas ou mortas. O corpo do “outro”, o negro, existe para ser olhado, temido, e, acima de tudo, derrotado.
Os objetivos científicos que levaram ao experimento em 1882 foram replicados para novos alvos, outros setores sociais e criaram novas justificativas. A desumanização, antes legitimada pelo etnocídio na ciência, agora se manifesta de forma brutal no campo da segurança pública e da violência.
O corpo negro, especialmente o do homem jovem e periférico, é lido pelo imaginário social e, perigosamente, pelas instituições, como o próprio sinônimo de perigo e criminalidade. Essa é a nova jaula. A cor da pele não é mais apenas um marcador racial; ela se torna um fator de incriminação imediata. Não à toa, a população carcerária do Brasil é de aproximadamente 909.067 pessoas, a terceira maior do mundo, sendo 70% composta por negros, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Mais ainda, das 4.068 mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, 3.066 vítimas eram pessoas negras, segundo o relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta.
Assim como os indígenas eram objeto de controle na Exposição de 1882, os corpos negros hoje são alvo de uma lógica que os coloca em situação de vulnerabilidade e extermínio. O indivíduo negro é, muitas vezes, encarcerado e julgado pela sociedade antes mesmo de ser preso pelo Estado. Sua mera presença em determinados espaços é lida como ameaça potencial que exige vigilância e repressão.
O foco repressivo da segurança pública em áreas majoritariamente negras visa, em grande medida, garantir a segurança percebida do “respeitável público” das áreas mais abastadas e brancas. O corpo negro é transformado no espetáculo da ameaça que deve ser contida para que o resto da sociedade possa se sentir “segura”.
A exposição do século XIX e a criminalização do século XXI são manifestações distintas de um mesmo fenômeno ideológico: o racismo. Ele nega a plena humanidade e cidadania a grupos não-brancos, justificando o controle, a violência e a exclusão em nome da manutenção de uma ordem social branca e “civilizada”.
A “besta fera humana” nunca deixou de ser o principal número na arena social brasileira. Ela apenas trocou a roupa, o cenário e o rótulo: do “selvagem” ao “criminoso”. Na ficção, o destino do homem exposto não foi a liberdade, ele só saiu das grades morto. No mundo real, a sociedade, ao invés de desmantelar a jaula, apenas a expandiu e a tornou invisível, garantindo que o ciclo de objetificação e controle racializado permaneça vivo e brutal. E, como no desfecho de “Beco do Pesadelo”, o horror se repete, e a plateia, somos todos nós.
Wellerson Soares é coordenador de comunicação da Rede de Observatórios.*