Rede de Observatórios de Segurança

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‘A defasagem de dados na favela mantém estrutura que nos silencia’

Por Bruno Sousa*

Os dados oficiais produzidos pelo estado não conseguem dar conta das favelas e periferias. Várias organizações da sociedade civil têm se movimentado para produzir dados que sejam coerentes com áreas e realidades específicas. Entre elas, está o LabJaca, um laboratório de dados e narrativas na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro.  

A iniciativa surgiu no meio da pandemia, através da junção de jovens negros e periféricos que já tinham atuação nas favelas. Eu sou um deles. Nossa ideia é produzir dados confiáveis sobre educação, segurança pública e saúde no nosso espaço. 

A iniciativa sugre da união de jovens periféricos. (Divulgação: Lab Jaca)

Inicialmente, a equipe se reuniu para fazer a distribuição de alimentos e kits de higiene para a população do Jacarezinho. No meio disso, decidimos aplicar um formulário com perguntas básicas sobre a covid-19. Questionamos sobre sintomas, se infectados e óbitos. O resultado nós deixou em choque. 

Os números da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro apontavam menos de 10 casos suspeitos em toda a favela e nenhum caso confirmado. Já o levantamento da nossa equipe revelava dezenas de casos suspeitos e muitos casos suspeitos graves, que não foram confirmados por falta de teste. 

Os dados que acabamos produzindo confrontavam diretamente os dados “oficiais” apresentando números muito maiores. No geral, é o que acontece quando os dados são produzidos por organizações que atuam na garantia dos direitos humanos. Mostrar para todos essa discordância tem como principal propósito pautar políticas públicas que resolvam os problemas apresentados pelos dados ditos “não oficiais” que os órgãos oficiais tentam deslegitimar.


Sendo bem didático e trazendo o exemplo do Jacarezinho, o último censo do IBGE em 2010, apontava 37 mil moradores na favela. No entanto, os moradores sabem que esse número é pelo menos duas vezes maior.  Ou seja, existe uma grande lacuna nesses números que precisa ser resolvida. Se não se sabe o número real de moradores, não é possível ter escola para todo mundo ou atendimentos para todos na UPA e clínica da família.  Como levaremos testagem e vacina contra o coronavírus para toda essa população se boa parte dela não está compreendida nesses números?

No LabJaca, transformamos esses dados em narrativas audiovisuais com linguagem simples. A ideia é que nosso levantamento seja consumido e entendido pela população das favelas. Nos preocupamos com quem essa produção impacta. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2020, pelo menos 11 milhões de pessoas no país são analfabetas e apenas 12% da população é proficiente, ou seja, conseguem ler, escrever e compreender tudo que está sendo dito e escrito. Dentro disso, a forma como comunicamos  nossos dados  é tão importante quanto os próprios dados. Para a gente, não adianta mostrar gráficos rebuscados para a tia da esquina ou chegar nela com dados oficiais defasados em uma linguagem acadêmica classe média Jornal Nacional. 

Vivemos em uma era onde tudo, ou quase tudo, é pautado por dados. Essa onda crescente na produção, tratamento e armazenamento serve tanto para uma avaliação sobre o presente quanto para fazer projeções futuras. A defasagem de dados na favela acontece para manter a estrutura que nos invisibiliza e silencia. Dar luz aos números reais é apontar o dedo para quem tem responsabilidade sobre eles

** Bruno Sousa é pesquisador do Cesec e coordenador de comunicação do Lab Jaca