Rede de Observatórios de Segurança

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A morte de Lorena Muniz reflete um processo de desumanização

Por Dália Celeste

Lorena Muniz, uma mulher trans de 25 anos, saiu de Recife (PE) com destino a São Paulo para realizar o seu sonho que lhe custou a vida. Ela estava sedada para a realização de uma cirurgia de implante mamário, quando teve o início de um incêndio. Durante a evacuação do prédio, Lorena foi negligenciada e abandonada no local, inalando uma alta quantidade de fumaça e gás carbônico por sete minutos. 

O caso aconteceu na última quarta-feira (17), de acordo com seu esposo Washington Barbosa que trouxe a situação à tona nas redes sociais. Sua esposa foi levada ao Hospital das Clínicas em estado extremamente grave e faleceu neste domingo (21).

Vídeos postados na internet mostram o momento em que todos saiam do lugar e abandonaram Lorena. Vale destacar que nas primeiras notícias que saíram na mídia sobre o incêndio não haviam relatos de vítimas no local. A clínica não prestou nenhum apoio à vítima e seus familiares. O marido de Lorena chegou a ser bloqueado nas redes sociais pelos responsáveis e ficou sem notícias da esposa.

Lorena e familiares foram assistidos pela deputada Erica Malunguinho e a vereadora Erika Hilton, ambas do estado de São Paulo. De acordo com atualizações finais em nota feita nas redes sociais da deputada Erica Malunguinho, a mãe da Lorena com uma atitude de coragem e exemplo, autorizou a doação de órgãos: “Lorena queria viver, então essa doação vai ser para que ela viva em outras pessoas”.

É muito importante falarmos  da importância de um amplo debate nacional e ações para a melhoria do atendimento de saúde para pessoas transexuais e travestis no Brasil. Embora o processo transexualizador já conste no SUS, registra-se uma longa fila de espera para o acesso aos procedimentos previstos. Segundo a Antra, as dificuldades são geradas pela falta de investimentos e pelos congelamentos dos gastos em saúde que resultam em falta de profissionais, hospitais e ambulatórios no país. Durante a pandemia, houve uma paralisação de cerca de 70% das cirurgias e atendimentos previstos para a saúde específica das pessoas transexuais e travestis.

Lorena representa o quanto os corpos de pessoas trans e travestis seguem desumanizados e animalizados dentro desse sistema social. Lorena foi mais uma vítima de toda atrocidade da transfobia estrutural, mais uma vítima do estado – que também não traz investimentos para a saúde dessa população. Esse caso reflete também a importância urgente de um debate de classe. Pessoas trans e travestis têm o acesso a empregos e renda negado,  por isso acabam procurando lugares com preços baixos, mas também não tão confiáveis, como a clínica procurada por Lorena.


Esses processos cirúrgicos vão além de uma questão de estética. São uma necessidade para que pessoas trans se encontrem no corpo de suas identidades. Não podemos deixar este caso passar impune e invisibilizado, é preciso cobrar  a discussão sobre a garantia do acesso e cuidados com a saúde da população trans e travesti. O debate precisa acontecer para que seja disponibilizado um suporte humano a essa população. Não podemos deixar de lutar por um SUS que atenda a todos, que seja universal e igualitário.


O corpo da Lorena não foi simplesmente “esquecido”. Ela foi deixada para morrer, o corpo trans é abandonado, apagado, desprezado e matável – por ação ou omissão. O caso, infelizmente, não é o único, é a consequência das negações, desumanização e violações no cotidiano de pessoas trans e travestis. Que possamos seguir na luta contra impunidade e pela responsabilização dos culpados.

A vida de todas as pessoas trans e travestis, importam!

Lorena Muniz, presente!

**Dália Celeste é pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança em Pernambuco

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