Rede de Observatórios de Segurança

Digestão indigesta: chacina do jacarezinho é extermínio, genocídio, raiva

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event 7 de maio de 2021

Pedro Paulo da Silva* 
Desde que as proporções da Chacina do Jacarezinho começaram a ser vistas, com os números de mortes saltando e chegando a 25 oficialmente – incluindo um agente, existe uma tentativa de entender o que aconteceu. Minha digestão pessoal tem sido resumida em um trecho de “Fórmula Mágica da Paz”, do Racionais, onde Mano Brown está recontando o sentimento de ter perdido um amigo. O poeta diz: eu me senti inútil, eu me senti pequeno, mas um cuzão vingativo vai vendo. 

Além de ser pesquisador de segurança pública, sou cria do Jacarezinho, preto e favelado. Como cria,  a tentativa de digerir tem sido indigesta. Vejo que muitos, assim como eu, não conseguiram dormir, não conseguiram comer, não conseguiram articular pensamentos direito. Pessoalmente quando me perguntam o que aconteceu, só consigo pensar nas palavras extermínio, genocídio e raiva.

Para o governo do estado, a pior chacina policial da história do Rio de Janeiro foi bem planejada e agiu com inteligência. Na Coletiva de imprensa da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ), o subsecretário da PCERJ e o delegado Felipe Curi, contaram que houve uma investigação de dez meses que gerou inteligência de que havia aliciamento de crianças por parte do “tráfico”. Porém eles não mencionaram que tentaram proteger crianças traumatizando outras. Não falaram sobre o homem assassinado no quarto de uma menina de oito anos e que ela presenciou a execução. Essa menina teve um quarto rosa pintado de vermelho com sangue de um ser humano.

 Aliada a “inteligência” também houve planejamento por parte da PCERJ. A chacina contou com dois helicópteros – sendo um o caveirão voador –, quatro caveirões e um contingente enorme de policiais. O Ministério Público (MP) estadual foi avisado da operação, como determinou o Ministro Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal (STF). Essa narrativa quer dizer que a Chacina do Jacarezinho foi legítima, afinal, cumpriu os requisitos: a tecnicalidade mais uma vez justifica o extermínio.

Alguns ditos especialistas tentaram explicar o ocorrido. Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), sugeriu que se houve planejamento e inteligência, se a PCERJ sabia que “criminosos” – a mesma palavra usada pela polícia – estavam fortemente armados, que a instituição deveria mobilizar um contingente que tivesse “superioridade numérica” para evitar um confronto. Colocando de outra forma, se para a PCERJ a Chacina do Jacarezinho foi uma ação bem-sucedida, embasada em planejamento e investigação, para o especialista do FBSP houve uma falha “tática”. 

De novo, a digestão leva para uma tecnicalidade. É preciso haver um cálculo racional que vá preservar vidas. Queria mencionar que, quem é cria do Jacarezinho, lembra de janeiro de 2018 quando a PCERJ e o Exército fizeram operações conjuntas – a “superioridade numérica” sugerida pelo especialista – e isso não evitou muito. Por isso, não consigo engolir, não desce, não consigo digerir, que a questão seja técnica em alguma medida. Não foi falta de planejamento, inteligência, investigação, “superioridade numérica”, foi justamente pelo planejamento, inteligência, investigação e “superioridade numérica” que o resultado foram 25 pessoas mortas. 

O problema é que vidas negras não importam. O problema é que o RACISMO, a palavra que nem o MP, nem os especialistas mencionam, é baseado em DESUMANIZAÇÃO. É simples, assim. O racismo da polícia é aliado do racismo do judiciário que aliado do racismo de especialistas que insistem em achar que o problema está em outro lugar. Quem puxou os gatilhos?

Minha perspectiva é que 25 mortes pelo estado, deveriam fazer a cidade do Rio de Janeiro pegar fogo. Em mim está entalado o grito de abolição, assim como estava em meus ancestrais. Abolição, a palavra que é tão difícil para aqueles e aquelas, na esquerda e na direita, que são protegidos pelas polícias. Abolição, o processo de criar novas instituições para lidar com as questões sociais que não aquelas, como a polícia, fundadas no colonialismo e no escravismo. Abolição, para acabar com a lógica racista que desumaniza o negro. Abolição, para que a gente finalmente tenha uma democracia. 

A minha digestão da Chacina do Jacarezinho é uma que acha a tecnicidade indigesta e cúmplice da violência. A minha digestão, como cria do Jacarezinho, é uma que reforça o entendimento de que as polícias precisam acabar – não desmilitarizar, acabar mesmo. Minha digestão é como a de Mano Brown. Vai vendo.

** Pedro Paulo da Silva é cria do Jacaré e pesquisador da Rede de Observatórios da Segurança e Cesec.

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