Rede de Observatórios de Segurança

#ELASVIVEM: um caso de violência contra a mulher é registrado a cada cinco horas

event 10 de março de 2022
    • São 1975 casos de violência contra a mulher monitorados pela Rede em 2021
    • Um caso de feminicídio foi monitorado a cada 24h 
    • SP teve um aumento de 27% de casos de violência contra a mulher
    • RJ teve uma tentativa de feminicídio a cada dois dias e aumento de 18% dos registros
    • PE é o estado com mais casos de violência contra a mulher no Nordeste
    • Ceará tem o maior registro de transfeminícidios entre os cinco estados monitorados 
    • Bahia tem um caso de violência contra a mulher a cada dois dias

 

Pelo segundo ano, a Rede de Observatórios revela os dados da violência contra a mulher monitorados em cinco dos sete estados em que atua: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Piauí e Maranhão passaram a integrar a Rede em agosto de 2021 e ainda não completaram um ano de monitoramento. O novo boletim Elas Vivem: dados da violência contra mulheres aponta 1975 registros em 2021. Entre eles, 409 são feminicídios. O material completo será divulgado na próxima quinta-feira e segue em embargo até o dia 10 de março, às 5 da manhã.

Esses números mostram que um caso de violência contra a mulher é registrado a cada cinco horas e todos os dias uma mulher morre por ser mulher nos estados monitorados. Mais uma vez o indicador é o terceiro colocado entre os registros da rede durante o ano, ficando atrás apenas de eventos com armas de fogo e ações policiais – que tradicionalmente ocupam o noticiário policial.  Em 65% dos casos de feminicídios e 64% dos casos de agressão, os criminosos eram companheiros da vítima

Os dados são produzidos de maneira independente a partir de um monitoramento do que circula nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre violência e segurança. Todos os dias, as pesquisadoras conferem dezenas de veículos de imprensa, coletam informações e alimentam um banco de dados que posteriormente é revisado e consolidado. São dez categorias de crimes contra mulheres: tentativa de feminicídio e feminicídio são os maiores registros no banco. A produção cidadã de dados se faz cada dia mais importante para que não fiquemos atados exclusivamente aos dados oficiais  – que por vezes são divergentes dos da Rede – em tempos em que impera a falta de transparência.

São Paulo apresentou um aumento de 27% de registros em relação ao ano passado e chegou ao número de 929 eventos monitorados: 157 feminicídios, 501 agressões e tentativas de feminicídios e 97 estupros. Os dados gerados pelas nossas pesquisadoras em relação ao número de feminicídios foram maiores que os números oficiais: dados do governo apontam 136 mortes. 

Atrás de São Paulo, aparece o Rio de Janeiro que tem um caso de violência contra a mulher a cada 24h. São 375 eventos de feminicídio e violência contra a mulher com 456 tipos de violência ( um único evento pode ter mais de um tipo de violência). O estado apresentou um crescimento de 18% nos registros em um ano. 

Pernambuco aparece na sequência com 311 registros de crimes contra mulheres. É o estado do Nordeste com o maior número de casos e o segundo entre os cinco estados em feminicídios – com 91 registros, enquanto a secretaria de segurança aponta 86 mortes.

Na Bahia temos um caso de violência contra a mulher a cada dois dias. No entanto, houve uma queda de 31% nos registros da Rede. Porém, quando analisamos os tipos de violência sofridas por essas vítimas, podemos ver que não há grande variação quando se trata de feminicídio: foi de 70 em 2020 para 66 casos em 2021. O Ceará apresentou uma queda de 20% nos casos de violência contra a mulher, mesmo que um dos casos mais emblemáticos do último ano tenha acontecido por lá: a agressão sofrida por Pamela Holanda praticada pelo ex-marido DJ Ivys. No estado, foram registrados 160 casos de violência contra a mulher.

Quando a motivação dessas agressões e mortes são informadas, as três maiores causas apontadas são brigas (28%), término de relacionamentos (9%) e ciúmes (8%). Boa parte dos crimes contra mulheres divulgados nos jornais (85%) não traz a informação racial da vítima. Mas, quando desconsideramos os casos em que a cor da vítima não é informada, temos 50,7% das vítimas negras, 48,6% brancas e 0,7% indígena. Algo nítido para as pesquisadoras da rede é que quando se trata de mulheres brancas e de classes mais abastadas a cobertura jornalística tende a ser mais completa. 

 

Transfeminicídios

 O Ceará é o primeiro do ranking pelo segundo ano, com 11 mortes e registra a mais jovem vítima de transfobia no Brasil até hoje: Keron Ravach foi morta aos 13 anos ao cobrar uma dívida. Pernambuco é o segundo estado em transfeminicídios com 10  casos monitorados. No último ano, no período de menos de um mês, quatro mulheres trans negras foram atacadas e mortas. Uma delas, Roberta da Silva, teve 40% do corpo queimado.

“Usar o termo transfeminicídio é crucial, pois assim se reconhece que são mulheres expostas ao feminicídio e à transfobia – que passa a ser encarada como uma problemática social. A sociedade que não reconhece nossos corpos não vê como a violência nos afeta”, explica a pesquisadora Dália Celeste, do Observatório da Segurança de Pernambuco.

 

Sobre a Rede de Observatórios

Após dois anos operando na produção cidadã de dados em cinco estados, a Rede de Observatórios, projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, chegou ao Maranhão e ao Piauí no segundo semestre deste ano. A Rede de Estudos Periféricos, da UFMA e IFMA, e o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens, da UFPI se unem a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop); Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC) e ao Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP). O objetivo é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos. 

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