Rede de Observatórios de Segurança

Entrevista: “A crise do coronavírus aparece quando militantes estavam lidando com governos fascistas”, diz Itamar Silva

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event 15 de abril de 2021

Por Juliana Gonçalves*

Nascido no morro Santa Marta, Itamar Silva, tem 65 anos e é ativista de favela e do movimento negro há pelo menos quatro décadas e hoje acompanha as articulações de combate à crise do coronavírus nos territórios. Para ele, o que acontece agora é diferente de outras movimentações que viu em todos esses anos de militância. “Existe uma habilidade das iniciativas de articular o processo de proteção local, de autoproteção, com a incidência sobre debate político de favela e seu lugar na pandemia”, diz.

Esse processo de cobrança do papel do poder público acontece em meio ao que ele define como um retrocesso bastante significativo de diálogo com os governos estadual e federal: “A crise do corona pega os militantes numa situação difícil de ter que lidar com governos fascistas e que não olham para a favela como território de direitos. Além de todas as nossas vulnerabilidades ainda tem esse conjunto de atuação desses poderes”.  Para Itamar, o grande marco dessa mobilização contra a covid é ver jovens e mulheres à frente desses movimentos e reconstruindo a narrativa favelada. 

Itamar Silva tem participação no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), no Movimento Negro Unificado (MNU), na Pastoral de Favelas, na Associação de Moradores do Santa Marta – onde criou o jornal ECO, na Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro e  é coodernador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), além de fazer do parte conselho do Centro de Estudo de Segurança e Cidadania (Cesec) e membro da Rede de Observatórios da Segurança. Conversamos com ele, que acompanha a trajetória do ativismo de favela há anos,  sobre o esse processo durante a pandemia, os efeitos da nova fase da covid para a militância e o que fica para depois dessa organização. 

Itamar Silva e Wesley Teixeira no lançamento da Rede de Observatórios da Segurança

Como você virou um ativista na favela e como você enxerga a importância do trabalho de pessoas como você para a comunidade?

Eu nasci no santa marta e, muito precocemente, eu tive que lidar com as relações culturais aqui na favela. Meu pai era músico, tinha um conjunto de samba, cantava aqui pela favela, ele tinha um grupo de amigos bastante ampliado que circulava na minha casa. Meu pai também era mestre de folia de reis. Carregava a bandeira dos três reis magos ao mesmo tempo que cantava samba. Ele também era presidente do time de futebol criado aqui no Santa Marta, tinha toda uma relação com os jovens e jogadores. Ele tinha uma respeitabilidade. Para completar, minha avó era rezadeira e era uma referência muito respeitada aqui na favela. Então, eu tive que lidar o tempo inteiro com essa circulação comunitária na minha casa, que ao mesmo tempo que me deixava incomodado porque tinha muita gente chegando o tempo todo, também alimentou a vontade de alguma forma contribuir com isso. Eu tinha curiosidade com tudo que eles faziam. Eu não tive escolha. Já estava de alguma forma ligado a tudo isso. 

Quando eu saio do Santa Marta para estudar eu não sentia uma conexão com aquilo que era me apresentado na escola. Eu era um na escola e outro na favela. Havia um descolamento. Isso me provocou uma reflexão de perceber as desigualdades e as condições físicas que me faziam diferente dos colegas que estudavam comigo. Acho que essa vivência me levou a ler muito cedo sobre questões políticas e pude começar a me posicionar em defesa do direito das pessoas que moram nas favelas, pelo acesso aos direitos mínimos como água, luz, saneamento. Essa luta me levou muito cedo a ser militante do movimento de favelas, a engajar na pastoral de favelas, no partido político. Essa minha trajetória me constitui como ser político e hoje não consigo pensar diferente disso.

Eu não escolhi ser ativista. Eu já venho de uma ambiência familiar que me levou para esse caminho para pensar politicamente a condição de favelado.

Você enxerga uma dinâmica diferente de atuação em favelas menores como o Santa Marta ou comunidades da Baixada Fluminense e locais como o complexo da Maré, Alemão e Rocinha? 

Essa pergunta é muito interessante para eu reafirmar uma coisa que eu sempre digo. Favela no Rio são favelas. Elas são diferentes. A gente tem uma falsa sensação quando lê sobre favelas como se tudo fosse a mesma coisa. Mas são dinâmicas econômicas diferentes, composições sociais diferentes, tamanhos diferentes, histórias diferentes, tempos de vida diferentes. Claro que há uma convergência nas questões fundamentais, nas ausências e dificuldades. Mas é importante entender as especificidades de cada território desse. 

Quando a gente fala de Santa Marta, Cantagalo, chapéu, mangueira, babilônia ou mesmo vidigal, são favelas médias para pequenas, mas que tem um histórico forte de resistência. Mas quando a gente fala de Rocinha é uma outra realidade, a Rocinha tem uma força pelo seu tamanho que a diferencia na forma de estratégias de lutas nesse cenário que a gente vive no Rio de Janeiro. 

De uns 20 anos para cá, a gente acompanha o que vem sendo chamado de complexos como o do Alemão, Maré e Manguinhos. Isso nem sempre foi assim. Esses complexos são o conjunto de várias favelas. Talvez por um interesse do estado de atuar politicamente nesses locais, ele foi criando essa conurbação e definindo como complexo e hoje esses territórios têm uma influência na política muito grande. Eles são como cidades e dentro deles tem bairros com dinâmicas diferentes. 

Esse raciocínio se aplica para a Baixada Fluminense. Baixada não é uma coisa única, é um território imenso, com uma diversidade impressionante, com uma história muita rica culturalmente falando e uma história política que a gente da capital precisa compreender para valorizar o protagonismo de quem está na Baixada quando falamos de atuação política de incidência do estado. 

Cada dinâmica se alimenta da trajetória histórica desses locais e da forma de produzir militância e lideranças. Essa riqueza é que torna um território potente permitindo a expressão de várias vozes. Isso acho que é o diferencial dos territórios populares.

Como você analisa o impacto da mudança de governo em 2018 ( tanto estadual como federal) para a população favelada do Rio de Janeiro? 

Eu acho que 2018 é um ano emblemático principalmente para quem está na favela porque historicamente as favelas sempre sofreram com a atuação violenta, com falta de respeito, letalidade policial. Desde o início dos anos 80, quando a PM passa a fazer operações em favelas sempre houve um desrespeito com o morador. Tanto que é a polícia que mais mata. É um histórico que foi crescendo nos anos 80, tem um agravamento nos anos 90 e depois você tem um intervalo em que esses números de mortes diminuem um pouco entre 2008 e 2014. 

Quando Wilson Witzel – governador afastado – é eleito, a gente já estava em um crescente de número de mortes em ação de polícia e a polícia foi autorizada a matar quando ele diz que na favela tem que mirar na cabecinha. Isso foi um reforço para a PM ampliar a sua atuação letal nas favelas. Vinculado a isso também há uma autorização letal do governo federal de que essa polícia pode atuar sem ser responsabilizada. 

Há um retrocesso bastante significativo. Aí vem a crise do corona que pega os militantes numa situação difícil de ter que lidar com governos fascistas e que não olham para a favela como território de direitos. Além de todas as nossas vulnerabilidades ainda tem esse conjunto que é a atuação desses poderes.

Na crise do coronavírus, os ativistas de favela estão buscando atender as urgências da população como a falta de comida, a luta pelo o auxílio emergencial e a garantia à saúde da população. Como você enxerga a movimentação?  Em algum outro momento histórico você viu algo parecido acontecer?

Eu acho que os ativistas de favela deram uma resposta bastante interessante ao  rapidamente se organizarem para garantir a sobrevida nos territórios de favela. E é importante a gente ressaltar que foram os jovens e mulheres à frente dessas iniciativas. E mais do que cesta básica, alimentação, máscaras e álcool, essas iniciativas tiveram a percepção de incidir num debate público revelando a ausência absoluta do poder público nesses territórios num processo de proteção de cuidado com essa população.

Iniciativas fundamentais para a gente desconstruir uma narrativa da favela como lugar de coitadinhos, somos um lugar de organização e resistência. Em outros momentos históricos, só vejo essa mobilização em catástrofes como enchentes e deslizamentos. Porém, destacaria que hoje, no contexto da covid, existe uma habilidade das iniciativas de articular o processo de proteção local, de autoproteção, com a incidência sobre debate político de favela e seu lugar na pandemia. Eu acho que esse é um elemento importante e podemos destacar o painel covid articulado com a Fiocruz e iniciativas como testagem, sanitização, informação direta com os moradores sobre processos de cuidado. 

Tem uma qualidade nessa forma de reagir que difere de outros momentos históricos porque ela articula o cuidado imediato com a dimensão política.

Nessa nova fase da pandemia, existe um agravamento do quadro social devido a inflação e o desemprego. Esse trabalho de distribuição de comida e itens básicos neste ano é diferente do ano passado?

Nessa terceira fase da pandemia o quadro é mais dramático porque a gente já vem de um ano de cansaço e que essa população já está muito impactada pelo desemprego e pela impossibilidade de trabalhar, no casos dos informais que dependem da circulação das pessoas na cidade.. É dramático. Se no ano passado a gente teve o auxílio emergencial de R$600, que foi um respiro para essas pessoas, agora você tem uma oferta que é menos da metade e em um momento em que a cesta básica, luz e gás aumentaram. Isso tá exigindo uma articulação muito maior da militância de favela para não só continuar com os processos de rede de apoio, mas também de trazer os governos federal, estadual e municipal para que eles assumam seu papel e para que essa população sobreviva.

Você está participando ativamente desse movimento? Como e onde está atuando? Como podemos ajudar?

Eu tenho participado desse debate, a gente uma articulação de favelas e destaco como positivo a gente ter conseguido um recurso com a assembleia legislativa que foi doado a Fiocruz e agora existe um edital para ações de enfrentamento a covid em favelas. Isso é importante porque primeiro é um valor significativo, depois ela abre uma possibilidade de que todas as favelas possam apresentar propostas e outro ponto positivo é o diálogo com a assembleia que traz eles para a dinâmica com esse recurso. Estamos pensando em como fazer isso também com a gestão municipal. 

Quem quer contribuir como sociedade civil, tem que olhar para as organizações próximas e que sejam de confiança. A gente precisa garantir essa rede para além da pandemia. Nossos problemas são históricos e precisamos aproveitar esses contatos para pensar o lugar da favela na sociedade. 

** Juliana Gonçalves é jornalista, mestranda do NEPP-DH/UFRJ, cofundadora da Firma Preta, membra do Minas da Baixada e coordenadora de comunicação da Rede de Observatórios da Segurança.

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