Rede de Observatórios de Segurança

Contra a estrutura racista da polícia: “É importante que tenhamos ciência dos nossos direitos e deveres para poder cobrar por eles”

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event 9 de dezembro de 2021

Em novembro, o influenciador e produtor Júlio de Sá foi abordado no Centro do Rio por agentes do Centro Presente. Na ocasião, o produtor foi parado ao sair de uma loja com a justificativa que “entrou e saiu rápido demais”. Naquele momento, Júlio iniciou uma live em seu perfil do Instagram e registrou tudo, porém, no final, foi conduzido para uma delegacia por cinco policiais que o acusaram de desobediência. 

Veja abaixo o texto que o produtor escreveu para a Rede de Observatórios relembrando o que sentiu durante aquele momento:

“Entendo que passar por abordagens policiais é algo comum. A pauta que levanto nessas abordagens são os absurdos que passamos e sabemos que se trata do racismo estrutural. Eu, hoje, com 31 anos de idade e sem nenhum antecedente criminal, já perdi as contas das vezes que fui parado pela polícia e, infelizmente, em sua maioria passando por situações de abusos injustificáveis, como foi nesse caso.

 

No dia 17 de novembro de 2021 foi mais uma dessas abordagens abusivas que vivi e que dessa vez resolvi agir, mesmo com medo e com receio. E o agir nessa questão foi uma manifestação de repúdio não contra aqueles policiais envolvidos naquele caso, mas uma manifestação contra a estrutura desse órgão público que foi criada com um objetivo extremamente racista e que até hoje propaga essas ações, que mata e prende pessoas inocentes apenas pela cor de sua pele. A força que eu tive para me manifestar dessa vez veio de um pensamento elevado ao meu filho e sobrinhos, que assim como eu são pessoas pretas, e não merecem passar por esses absurdos.

 

Quando ouvi do policial que ele estava me parando por eu ter “entrado e saído rápido demais da loja” e que o “o vento poderia ter feito um volume na minha camisa” entendi que aquilo não se tratava dos verdadeiros motivos. Mas que, na verdade, era mais uma dessas tantas outras abordagens abusivas que já passei. Tomei a decisão de abrir uma transmissão ao vivo em minha rede de trabalho para me proteger do que poderia acontecer dali em diante. Imagina o que poderia acontecer se fosse uma situação tarde da noite e eu não tivesse uma rede com um alcance considerável?

 

A sensação de tristeza e impotência por estar vivendo aquilo novamente era inexplicável. E por mais que a gente fale sobre esse assunto (racismo estrutural) de forma constante, não estamos 100% prontos para passar por isso de forma alguma, e foi exatamente esse o motivo para eu ter desabado emocionalmente, porque não conseguia mais segurar meu sentimento gigante de tristeza por tudo aquilo que estava acontecendo comigo mais uma vez.

 

É importante que tenhamos ciência dos nossos direitos e deveres para poder cobrar por eles. Eu sei bem que esse caso que aconteceu comigo não é algo raro, e que muitos desses casos acabam de forma muito drásticas, e sei que eu ter a ciência mesmo que pequena dos meus direitos naquele momento evitou um cenário pior. Faço aqui um apelo para que esse órgão público repense e mude suas ações para combater também essa estrutura racista. E recomendo aos meus que se informem cada vez mais e estejam atualizados dos seus direitos para assim, se proteger também dessas situações.”

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