Rede de Observatórios de Segurança

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Rio de Janeiro é máquina de moer gente negra

Por Pablo Nunes*

Faz uma semana que recebemos a notícia de mais uma morte ocorrida em operação policial. Na terça, dia 8 de junho, foi a vez de Kethlen Romeu, mulher negra de 24 anos, grávida de 14 semanas, que visitava seus parentes no Complexo do Lins, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. O discurso da polícia seguiu o roteiro já bem conhecido dos cariocas: policiais em ronda na favela foram recebidos a tiros e se defenderam, ao fim do conflito um corpo foi encontrado e levado ao hospital. Parentes e testemunhas disseram não haver troca de tiros no momento em que Kethlen foi alvejada, enquanto caminhava com sua avó para visitar sua tia em outro ponto da comunidade A jovem, que se mudara do Lins meses antes por medo da violência, teve sua vida interrompida pela lógica de que segurança pública se faz com confronto.

Kethlen não foi a primeira. O instituto Fogo Cruzado contabiliza 15 grávidas mortas em cinco anos entre as 715 mulheres alvejadas. A violência armada é uma marca do Rio de Janeiro e tem se elevado nos últimos anos. Violência que cobra seu preço em vidas de jovens negros, moradores de favelas do Rio. Tem sido assim por décadas. Nos últimos cinco anos, temos batido recordes sucessivos de mortes por intervenção de agentes do Estado, mais de mil a cada ano. Em 2021, nos primeiros quatro meses, foram 595 mortes e se esse ritmo se manter, fecharemos o ano com mais de 1.700 mortes, sendo o segundo maior número da história do estado.

Essa violência sem paralelo tem alvo certo e conhecido. Mais de 80% das pessoas mortas pela polícia em 2019 eram negras. Esse percentual não muda muito ano após ano. São em sua grande maioria jovens, negros e moradores de favelas, aqueles para quem o Estado se apresenta apenas pelo cano de um fuzil, a quem é negado o direito a educação de qualidade, saúde e lazer. 

Enquanto seguimos contando os mortos, a máquina da violência segue em ritmo acelerado, com desassombro em relação às tragédias e massacres ocorridos nos últimos tempos. Apenas em 2020, o Observatório da Segurança RJ contabilizou mais de 2.601 ações de policiamento no estado do Rio, nove chacinas em operações policiais apenas nos primeiros dois meses em 2021, com aumento de 160% no número de mortos em comparação com o ano anterior.

E o que justifica essa política que faz do confronto seu principal instrumento é a guerra às drogas. Essa é uma máquina de moer gente bilionária: pesquisa do CESeC mostrou que apenas em 2017 o estado do Rio gastou cerca de R$1 bilhão com a proibição das drogas apenas na esfera da justiça criminal. O que também causa perplexidade é saber que essa guerra é sustentada por meio de impostos, que proporcionalmente incidem mais sobre o orçamento dos mais pobres, dos negros e dos moradores de favelas, vítimas majoritárias da violência armada.

A despeito do contínuo investimento no confronto como política de segurança pública, não temos registrada redução dos índices criminais, não houve aumento do sentimento de segurança na cidade e os grupos criminais seguem mais fortalecidos enquanto seu domínio territorial tem aumentado. Seguimos insistindo numa lógica que nunca alcançou melhorias para a população, pelo contrário. Se analisarmos toda a série histórica de índices criminais do Rio de Janeiro veremos que as maiores reduções foram em períodos em que o confronto deixou de ser o principal instrumento das polícias.Uma mudança de rumo é urgente. Não podemos seguir investindo em violência à espera de outros resultados que não a morte de Kethlens, Joãos Pedros, Marias Eduardas. Não podemos mais aceitar que jovens negros sejam mortos aos milhares e que a morte de mulheres grávidas e crianças sejam “efeitos colaterais” dessa guerra insana. Nunca seremos uma verdadeira democracia enquanto o racismo seguir empunhando seus fuzis e fazendo tombar corpos negros nas favelas. O pai de Kethlen ao comentar a morte da filha resumiu: “A gente quer justiça. O nosso povo, o povo pobre, está cansado de dizer. Só mudou o personagem”.

** Pablo é coordenador da Rede de Observatórios da Segurança. Esse texto foi originalmente publicado na newsletter Fonte Segura.

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