Rede de Observatórios de Segurança

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Tag: violencia domestica

Flores com cheiro de morte: presentes de ex-companheiros transformam mulheres em vítimas

Por Francine Ribeiro*

As ferramentas utilizadas para marcar o corpo da mulher ou retirar a sua vida são diversas, os agressores usam arma de fogo, arma branca, fogo, gás, correntes para manter a vítima em cárcere privado, até objetos para torturar e espancar. Porém, há aqueles que usam de armadilhas para conseguirem ter acesso às vítimas. 

Mais recentemente, dois casos se tornaram públicos e ganharam repercussão na mídia por conta do recurso utilizado pelos homens a fim  de atrair as vítimas. Em um suposto ato de carinho, os ex-namorados entregaram buquê de flores para as mulheres; flores que carregavam a violência e anunciavam a morte.

A primeira vítima, uma mulher de 49 anos chamada Edileuza, recebeu em casa um buquê de flores junto a uma caixa de presentes, quando abriu, uma bomba explodiu causando danos irreparáveis na sua face, ela também teve queimaduras nos braços e na barriga. As sequelas comprometeram sua  visão e ocasionaram  perda parcial da audição . Além dos danos físicos e a destruição da casa, a vítima está traumatizada, mal consegue dormir e acredita que a qualquer momento seu algoz reaparecerá.

O motivo? O acusado do crime mantinha um relacionamento extraconjugal com a vítima, que em dado momento não aceitou mais essa condição, o que o revoltou e movido pela frustação e o ciúmes tentou acabar com a vida dela – O término de relacionamento e o ciúmes somam 29% das motivações conhecidas de todos os casos levantados pela Rede em SP. Não bastando o crime em si e todas as consequências, o agressor tinha planos de fugir do país, mas foi preso semanas depois por tentativa de homicídio e ameaça.

No segundo episódio, Alessandra, uma jovem de 19 anos, moradora de Araçariguama no interior de São Paulo, foi morta a facadas ao receber um buquê de flores do seu ex-namorado. O acusado havia tentado retomar a relação diversas vezes, a procurava constantemente e até chegou a tentar suicídio; a vítima, apesar de não o desejar de volta, sempre o atendia. Mas, em uma última tentativa, Rafael foi até a casa dela munido de uma faca, deixando à vítima duas opções: ou ela voltava a se relacionar com ele ou ela morreria. Diante da negativa, o feminicídio foi concretizado e a vítima veio a falecer horas depois no hospital, a mãe dela também foi atacada por ele mas sobreviveu. Rafael tentou fugir da cidade, chegou a ir para a capital, mas foi encontrado e teve a prisão decretada dias depois do crime.

Nota-se que em nenhum dos casos se falou em tentativa de feminicídio ou em feminicídio, mesmo que em ambos tenham as características necessárias para esses enquadramentos. Os dados apresentados no Boletim A Dor e a Luta revelam números que chamam a atenção. Dentre os cincos estados monitorados, o estado de São Paulo lidera o total de casos de Tentativa de Feminicídio, Agressão e Feminicídio. Com análises do ano de 2020, constatou-se que entre capital, região metropolitana e interior; 384 mulheres foram alvo de agressões e de tentativas de feminicídio, enquanto que, 200 sofreram a consumação desse crime e foram mortas 

 O machismo e seu caráter dominador sobre o corpo da mulher – disfarçado de demonstração de afeto – deu forma a essas ações violentas de ex-companheiros que não aceitavam o fim da relação. A vulnerabilidade das mulheres, o medo e a insegurança que as assombram, tem relação direta a falta de consciência na sociedade sobre os danos que o sistema patriarcal machista causam, bem como, a ausência de politicas públicas e de segurança direcionadas a proteção da mulher – de maneira ampla e efetiva. Essas carências elevam os riscos de violência contra a mulher nessa realidade adversa. Tendo em vista que cerca de 70% dos agressores tinham algum tipo de relação afetiva com a vítima, uma pergunta se faz inevitável: Quantas mais mulheres serão enganadas, feridas e mortas, com buquês de flores por aqueles que um dia amaram? 

** Francine é pesquisadora de Rede de Observatórios da Segurança em São Paulo

*** Ilustração: Júlia Morena

Uma epidemia na pandemia: 58% dos feminicídios é cometido por companheiros das vítimas

*Juliana Gonçalves

Nos primeiros dias do ano, ainda impactados pela morte da juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi que foi morta na frente das filhas no véspera de Natal, recebemos uma enxurrada de notícias sobre feminicídios em diferentes partes do país. São casos como o da jovem carioca Bianca Lourenço, de 24 anos, morta pelo ex namorado após postar uma foto de biquine e da cearense Keron Ravach, de 14 anos, a mais jovem vítima de transfeminicídio do país. Esse é um retrato de um país que vive uma epidemia de feminicídios dentro da pandemia do coronavírus. 

Mais da metade desses crimes, 58% deles, é cometido pelos companheiros das vítimas, segundo o boletim A Dor e a Luta: números do feminicídio divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança na última quinta-feira, dia 4. O levantamento feito pela Rede traz números de cinco estados em 2020: Bahia, Ceará, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Os dados são gerados a partir do monitoramento do que é noticiado na imprensa e nas redes sociais. As pesquisadoras alimentam um banco de dados que é checado e consolidado posteriormente. 

Surpreende no boletim, a diferença entre os dados divulgados pela Rede e pelas secretarias de segurança dos cinco estados monitorados. Em São Paulo, Pernambuco e Ceará foram registradas mais mortes do que nos dados oficiais. O que acende um sinal de alerta quanto a classificação desses crimes. Crimes de feminicídio estão sendo encarados como homicídios ou lesão corporal grave seguida de morte pelas autoridades.  

É com base nos dados que as políticas públicas são construídas e revistas. Não se consegue mensurar a eficácia dos mecanismos existentes como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. As pesquisadoras da Rede apontam para uma grande dificuldade de um recorte quantitativo racial por falta da informação da cor da vítima nas matérias monitoradas. Se os números estão subnotificados, não é possível realizar um enfrentamento de fato eficaz para esse tipo de violência que muitas vezes acontece em casa, o ambiente em que a mulher deveria estar segura. Ainda mais neste contexto pandemico em que vivemos. 

O estar em casa foi como um castigo para parte das mulheres que passaram a conviver mais tempos com seus algozes e tiveram mais dificuldades de acessar as redes de acolhimentos e os canais de denúncia. Esse efeito foi sentido nos cinco estados monitorados pela Rede de Observatórios com um aumento de casos noticiados na imprensa depois do isolamento social. Em São Paulo, que concentra 40% dos casos monitorados pela Rede de Observatórios, Dona Deice, uma senhora de 68 anos, tentou impedir que o marido saísse de casa sem máscara e acabou assassinada por ele.

Deice foi morta a facadas. Essa é uma dinâmica observada pelas pesquisadoras da Rede: muitos homens se utilizam de objetos perfurocortantes para matar suas companheiras. O local escolhido para desferir os golpes e a quantidade demonstram o ódio existente no ato do crime – que pode ser classificado como crime de ódio pelo nível de crueldade empregada. As chamadas armas brancas são as mais usadas nos feminicídios – principalmente nos estados monitorados no Nordeste. Em São Paulo, no entanto, existe um grande uso de armas de fogo. Isso acende o alerta para a discussão da ampliação do porte de armas defendida pelo governo Bolsonaro. Esta medida irá deixar as mulheres ainda mais expostas.  

Na Rede de Observatórios da Segurança são cinco casos de violência contra mulher por dia. Neste fim de semana, mais uma mulher foi morta pelo companheiro em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, Priscila Cardoso foi encontrada morta com ferimentos provocados por faca no último domingo, véspera do Dia Internacional da Mulher. O companheiro estava ao lado do corpo e foi preso em flagrante. Isso é fruto do machismo que alicerçou as bases da sociedade desde a época do Brasil colônia e que dá frutos ainda hoje. A mulher é vista como um objeto, como uma posse do marido. Precisamos falar destes crimes, lembrar que esse números são vidas, para que outras mulheres não morram vítimas desse machismo estrutural. 

** Juliana Gonçalves é jornalista, coordenadora de comunicação na Rede de Observatórios da Segurança, mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos na UFRJ, cofundadora da newsletter Firma Preta e membra do Coletivo Minas da Baixada.

***Este texto foi originalmente publicado na Newsletter Fonte Segura.