Rede de Observatórios de Segurança

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Visibilidade trans é sobre humanização

Por Dália Celeste*

Depois que mulheres transexuais e travestis estiveram em Brasília para lançar a campanha “Travesti e Respeito”, do Programa Nacional de DST/Aids, em 29 de janeiro de 2004, a data ficou conhecida como Dia da Visibilidade Trans. O objetivo é estimular reflexões sobre a humanização e cidadania para nós. Mas lembro que , a luta contra o preconceito, a estigmatização, a exclusão e a discriminação dos nossos corpos é diária.

O Brasil foi o país que mais matou pessoas trans e travestis em todo o mundo no ano de 2020 segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).  . Foram 184 registros. Entre eles,175 execuções. Os números revelam que 56% tinham entre 15 e 29 anos, 65% das mortes foram de profissionais do sexo e  71% desses crimes aconteceram em locais públicos. Também precisamos olhar para a questão racial para analisar essas mortes: 78% das vítimas foram identificadas como pessoas negras e não brancas. Ter esses crimes cruéis contabilizados (lembro que existe subnotificação) é importante para que possamos cobrar políticas de segurança pública para essa população.

Uma das primeiras violências que pessoas trans e travestis enfrentam parte da família. São os pais que estabelecem um destino para seus filhos dentro de seus conceitos cisheteronormativos. Esses corpos quebram às expectativas estabelecidas. É dentro de casa que começam os processos de não aceitação. No ambiente escolar não é diferente. Muitas pessoas trans e travestis acabam abandonando os estudos.

Um artigo assinado por Maria Daniela (RENFA-PE) e Apollo Arantes (MOVIHT-PE)  explica que durante a pandemia muitas mulheres trans e travestis passaram a enfrentar o medo da violência e das consequências do coronavírus. Muitas não conseguiram nem mesmo o auxilio emergencial. Além disso, ainda enfrentam um retorno forçado à família: “A convivência obrigatória em ambientes familiares foi fortalecida pela pandemia e assim colocou em extrema vulnerabilidade pessoas trans que ainda convivem com seus familiares, mas que não tem boa relação. Esse é um estado de alerta para a população transmasculina, tendo em vista o alto grau de pensamento suicida que essa população apresenta”.

A mídia coloca à sombra todas essas violências que sofremos. Não há prioridade na pauta para essas discussões. Notamos que na hora do óbito, todo o empoderamento do corpo e sua construção da identidade de gênero é deslegitimada. Sendo enterradas junto com o desrespeito de sua história, que por muitas vezes é apagada ou exposta por um gênero que a vítima não se identificava.


Até na morte a cidadania de pessoas trans e travestis segue negada na sociedade. É necessário mudar a forma como falamos sobre o assunto. Somos corpos excluídos por um estado fundamentalista e um sistema conservador. Pessoas travestis e transexuais devem ter visibilidade em todos os espaços e em todos os hábitos sociais como família, educação, mercado de trabalho, saúde, segurança e afetividades. O direito de ser e existir de pessoas trans e travestis, é constitucional.

Por isso, é muito importante frisar que o dia da visibilidade trans é todos os dias. É preciso entender que esse processo de humanização é urgente, enxergar esses corpos não apenas por suas identidades de gênero, mas como corpos que possuem também suas particularidades enquanto pessoas, que são capazes, tem autonomia e podem desenvolver trabalhos incríveis.

A cada trans e travesti vivas, forma-se um novo universo social.

** Dália Celeste é pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança em Pernambuco.

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