Rede de Observatórios de Segurança

A ditadura policial militar nas favelas já começou?

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event 17 de maio de 2022

Por Silvia Ramos*

O caveirão, temido blindado da polícia civil do Rio de Janeiro, entrou na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, na última quinta-feira, dia 11, com o objetivo de destruir a memória dos mortos na maior chacina policial do estado numa cena de truculência, ousadia e provocação. A polícia demoliu um memorial que organizações sociais, coletivos de favelas e líderes comunitários tinham inaugurado na semana anterior com o nome de 28 pessoas mortas numa operação policial no ano anterior. 

A equipe da PCERJ não mostrou licença ou ordem escrita para a demolição do memorial, uma estrutura bem cuidada, protegida da chuva, onde havia plaquinhas com os nomes dos mortos. Porém, mostrou brutalidade, a inexistência de diálogo e o uso de máquinas de morte – metralhadoras, uniformes militares camuflados e blindados. Esse acontecimento transmite várias mensagens que nós, pesquisadores do campo da violência e da segurança, nós ativistas de favelas, nós militantes antirracistas do Brasil precisamos manter em mente com absoluta precisão para planejar nossas pesquisas e ações nos próximos anos. 

Em primeiro lugar, é preciso analisar o gesto de demolir o memorial usando um “caveirão”, representação da morte e do medo nas favelas cariocas. Além de seu potencial letal real, registros mostram que esse veículo provoca pavor nas crianças quando passa com gravações como “Vim buscar sua alma” A destruição do memorial com o uso do blindado acrescenta uma camada simbólica forte à capacidade da morte física. Trata-se de tentativa de apagar a memória, o espanto e o trauma da maior chacina policial da história do estado do Rio de Janeiro. A operação de demolição levou  terror e intimidação aos moradores, líderes comunitários e de toda a sociedade. Por enquanto, efetivamente não poderemos reerguer o memorial. Não existem condições de segurança para isso. 

Em segundo lugar, isso nos remete à lembrança de que a operação policial que produziu a morte de 28 pessoas e um agente policial em maio de 2021 foi batizada pela própria polícia de “exceptis”, numa provocação declarada ao Supremo Tribunal Federal (STF) que havia determinado que operações policiais no Rio de Janeiro deveriam ser suspensas, salvo em casos de excepcionalidade. A polícia civil e o governo Castro enfrentaram a Suprema Corte sem que qualquer resposta tenha vindo do poder Judiciário. Menos de um ano após a operação no Jacarezinho, o Ministério Público do Rio de Janeiro arquivou a maioria dos inquéritos abertos sobre a matança, dando um sinal verde para outras chacinas policiais e para ações violentas da PCERJ –  como a destruição do memorial.   

Nos jornais diários pergunta-se se Bolsonaro planeja um golpe militar no país? Alguns articulistas afirmam que o golpe já começou. Olhando o que se passa nas favelas cariocas e em parte da região metropolitana fluminense, nos perguntamos se a ditadura policial militar já não está em curso ali? O episódio da chacina policial em 2021 e a destruição do Memorial do Jacaré pelo blindado da PCERJ em 2022 subiu um degrau nessa direção. Nenhum respeito, nenhum diálogo, nem mediações; exclusivamente a força das armas e dos métodos militares se impondo sobre moradores e líderes comunitários.

O governador Castro é candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro, assim como Bolsonaro é candidato à presidência da República. No momento, não sabemos o que enfrentaremos nos próximos quatro anos. Mesmo que se elejam, a ditadura não vai durar para sempre.  

O memorial dizia: “não esqueceremos”. E nós, pesquisadores, ativistas e militantes antirracistas  também não vamos esquecer. Nós estamos nessa estrada há mais de 30 anos e não vamos parar, vamos lutar para sempre. Não esqueceremos que políticos como Bolsonaro e Castro, apoiados por autoridades fascistas incrustradas dentro das polícias fluminenses, representam a dor, a abjeção e o perigo para moradores das favelas e periferias, especialmente para os jovens negros e negras.

* Silvia Ramos é coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança

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