Rede de Observatórios de Segurança

Rede de Observatórios de Segurança

Categoria: Sistema Penitenciario e Socioeducativo

Rede divulga dados inéditos reunidos em um ano de monitoramento

A Rede de Observatórios da Segurança divulga nesta terça-feira, 14 de julho, a publicação Racismo, motor da violência, com uma live com o mesmo título às 18h, pelo Youtube do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania. Resultado de um ano de monitoramento em cinco estados brasileiros, o boletim analisa mais de 12.500 registros de eventos relacionados à segurança pública e à violência em cinco estados: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Os dados foram reunidos através do acompanhamento diário de jornais, sites, portais noticiosos, perfis de redes sociais e grupos de WhatsApp pelos pesquisadores da Rede, com base em uma única metodologia de classificação. Entre muitas outras descobertas, o relatório demonstra a ausência de registros sobre racismo e injúria racial (só 50 ocorrências), em contraste com a abundância de notícias sobre ações policiais (mais de 7 mil casos). O documento também aponta como a predominância de negros e negras entre as vítimas de violência está ausente do debate público.  Pretos e pardos são a grande maioria dos mortos pela polícia, mas em 7.062 notícias sobre ações policiais analisadas houve apenas uma menção à palavra negro e equivalentes.  

Dividida em capítulos, a publicação traz dados sobre Policiamento, Feminicídio e violência contra a mulher, Violência letal e Sistema penitenciário e socioeducativo, além de textos analíticos assinados pelos pesquisadores e coordenadores dos Observatórios da Segurança.

A live de abertura terá a presença de Dudu Ribeiro, coordenador do Observatório da Bahia e da Iniciativa Negra para uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Preto Zezé, presidente da Central Única de Favelas (Cufa); Flávio VM Costa, escritor e repórter especial do UOL; Monica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco; Pedro Paulo Silva, pesquisador da Rede de Observatórios. Assista no Youtube do CESeC: bit.ly/CESeCYouTube.

Outros debates ao vivo estão programados para as próximas semanas, com a presença de representantes da Rede – Bruno Paes Manso (SP); Edna Jatobá (PE); Pablo Nunes (RJ); Ricardo Moura (CE); e Silvia Ramos (RJ) – e convidados.

Um projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, a Rede é formada por cinco observatórios locais, mantidos em parceria com as organizações: Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop); Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC); Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP).

Veja a seguir alguns destaques do relatório Racismo, motor da violência.

POLICIAMENTO

A Rede de Observatórios da Segurança é a única iniciativa que monitora operações policiais. O acompanhamento é feito desde 2018, no Rio de Janeiro, e de junho de 2019, nos cinco estados que formam a Rede. O balanço de um ano de casos confirmou a letalidade das polícias no Brasil: as operações e patrulhamentos monitorados pelos cinco Observatórios durante um ano resultaram em 984 mortos e 712 feridos. Ou seja: uma em cada sete operações monitoradas registrou ao menos uma morte.

O Rio de Janeiro é o estado que teve mais ações policiais – foram 2.772, no período – seguido por São Paulo (2.210), Bahia (1.105), Ceará (707) e Pernambuco (358). O estado fluminense também registrou o maior número de vítimas nestas ações monitoradas: ao todo, foram 981 pessoas. O total inclui 483 mortos (inclusive 19 crianças) e 479 feridos. São Paulo teve 362 vítimas (249 fatais) e a Bahia, 332 (260 fatais).

FEMINICÍDIO E VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER

Durante o seu primeiro ano de monitoramento, a Rede de Observatórios da Segurança também se dedicou a monitorar os dados de violência contra mulher. Ao todo, foram computados 1.408 casos desta natureza nos cinco estados monitorados. Juntos, feminicídios e tentativas de feminicídio correspondem a 68,8% deste total –

454 e 516, respectivamente. São Paulo foi o estado com mais casos de feminicídios (175), seguido de Pernambuco (90) e Bahia (75).

VIOLÊNCIA LETAL

A Rede de Observatórios não monitora homicídios, já que dados sobre este crime são disponibilizados pelos governos e acompanhados por outros projetos, como o Monitor da Violência. No entanto, a Rede acompanha determinadas dinâmicas da violência letal.

  • Em um ano de monitoramento, nos cinco estado, foram registradas 101 chacinas – eventos em que três ou mais pessoas são mortas na mesma ocasião. As três cidades com mais registros deste tipo de violência são: Rio de Janeiro (23), Salvador (17) e Fortaleza (7).
  • Os pesquisadores da Rede registram um linchamento ou tentativa de linchamento a cada quatro dias. Ao todo, foram 74 ocorrências. Pernambuco foi o estado com mais casos – 26 ao todo, seguido do Ceará (16) e Bahia (15), Rio de Janeiro (9) e São Paulo (8).
  • A Rede também monitorou casos de violência letal contra as crianças e adolescentes. Ao todo, foram registrados 291 assassinatos de menores de idade e 27 tentativas de homicídio.

ATAQUES DE GRUPOS CRIMINAIS

Ações de grupos armados, com clara intenção de demonstrar poder, promovem um sentimento de insegurança na população e influenciam as estratégias dos governos em relação às políticas de segurança pública. O Ceará foi o estado que registrou mais ocorrências no período, inclusive uma onda de ataques, em setembro de 2019. O estado registrou 117 ocorrências, com 81 veículos e 31 construções queimados ou depredados no período abrangido pelo monitoramento da Rede de Observatórios.

SISTEMA PENITENCIÁRIO E SOCIOEDUCATIVO

O relatório da Rede de Observatórios confirma uma tendência já apontada: apesar do grande contingente que cumpre medidas no Sistema penitenciário e socioeducativo, o interesse da sociedade e das autoridades em discutir esses espaços é pequeno. Só 1% dos registros da Rede (183 casos) diz respeito a estas instituições. Notícias sobre fugas, rebeliões ou ocorrências policiais são 58% destes relatos, mostrando a preocupação com o perigo que os detentos podem representar para a sociedade. Segundo o Infopen, 63% dos encarcerados são negros.

Leia e baixe o relatório Racismo, motor da violência.

O triste fim do Conselho Penitenciário do Ceará

Por Ricardo Moura*

Criado em 27 de janeiro de 1927, o Conselho Penitenciário do Estado do Ceará é um órgão consultivo e fiscalizador do modo como a pena é executada, além de ter a incumbência de inspecionar os estabelecimentos e os serviços penais, colaborando tanto na elaboração quanto na revisão da política criminal e penitenciária do Governo do Estado.


Sua composição é formada por representantes da sociedade civil como professores universitários, defensores públicos, promotores, agentes penitenciários, membros da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Ceará (OAB Ceará), da Pastoral Carcerária e da própria comunidade. Trata-se, portanto, de um espaço de controle social sobre o modo como é feita a gestão do processo de punição e reabilitação de quem comete crimes. Mais que simplesmente “se livrar das pessoas indesejáveis”, a política penal precisa se adequar às normas constitucionais visando a reinserção dos indivíduos à vida social.


Relativamente desconhecido do grande público, o Copen assumiu um papel de protagonismo no debate sobre a política penitenciária a partir de abril de 2017, durante os ataques promovidos pelas facções a ônibus em Fortaleza. Ao se pronunciar publicamente sobre as causas da crise, o Conselho escancarou uma situação que vinha sendo negada pela administração da então Secretaria de Justiça (Sejus).  


Embora as condições dos presos nunca tenham sido uma prioridade na pauta governamental, o cenário se agravou radicalmente a partir de maio de 2016, quando o sistema prisional entrou em colapso. Desde então, as organizações criminosas passaram a exercer uma forte pressão de dentro das grades. A facção Guardiões do Estado, oriunda do Ceará, não deixa de ser um subproduto do abandono estatal às demandas relacionadas à população carcerária. O Copen, de certa forma, atuava como um espaço de mediação nessa tensa relação entre governo e sociedade.


No entanto, desde a criação da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), em janeiro do ano passado, o Copen definha. Em setembro, o órgão denunciou a existência de um processo de desmonte com servidores sendo realocados, corte do acesso ao Sistema Penitenciário (Sispen) e inviabilização da estrutura física para seu funcionamento.


Embora tenha alegado restrição orçamentária nesse episódio, a SAP adota uma versão semelhante de sua “política do procedimento” nas relações que mantém com o mundo exterior: muito rigor e pouquíssima margem para prestação de contas (accountabilty). É fato que a gestão Mauro Albuquerque segue com poucas contestações, tanto dentro quanto fora do governo, mas a transparência e o cumprimento dos ritos legais precisam estar acima da obtenção de resultados. O Conselho Penitenciário desempenha um papel fundamental nesse aspecto, ao lançar um olhar qualificado para o que ocorre longe das vistas da população. 


Desde janeiro, contudo, o Copen não se reúne. O mandato dos conselheiros expirou e, conforme a coluna apurou, os nomes dos indicados não foram encaminhados à Casa Civil para que possam ser nomeados pelo governador. Sem membros efetivos, o órgão não consegue atuar, prejudicando a fiscalização acerca das atividades da SAP, cujo modus operandi foi alvo até mesmo de denúncia do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT).


O sistema penitenciário do Ceará passa por uma espécie de intervenção branca, bastante conveniente para amplos segmentos da população, que, definitivamente, não se importam nem um pouco com as condições nas quais os detentos vêm sendo mantidos. Embora as mortes nos presídios tenham diminuído, falta definir uma política prisional com diretrizes, metas e objetivos. Uma inspiração para tanto pode ser encontrada no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (PNPCP) que prevê, dentre outras medidas, a redução do encarceramento.


Uma lição que pode ser aprendida com a crise ocorrida na Polícia Militar é que as políticas públicas na área da segurança pública precisam ser definidas de forma clara, cumpridas rigorosamente e submetidas a um controle social externo. A existência de uma norma oculta no interior das instituições pode até gerar bons resultados em um primeiro momento, mas o risco de que práticas estatais paralelas floresçam no longo prazo, desafiando as autoridades existentes, demonstra que a aposta não vale a pena.


O apelo à constitucionalidade ocorrido durante o motim dos PMs deve se estender às demais esferas da administração pública. Auxiliar a retomada das atividades do Conselho Penitenciário seria uma boa mostra do comprometimento do Governo do Estado com princípios como a legalidade, a dignidade da vida humana e a transparência pública de suas ações. Afinal, como bem afirma o próprio governador, “ninguém está acima da lei”.o

*Pesquisador do Observatório da Segurança – Ceará. Esta coluna foi publicada originalmente no jornal O Povo

Coronavírus e sistema prisional: crise à vista

Manter distância de aglomerações e lavar as mãos frequentemente são as medidas fundamentais para evitar a propagação do novo coronavírus. Como fazer isso nos presídios? Nas penitenciárias brasileiras, a superlotação é a regra, e o acesso a recursos de higiene, restrito. 

Segundo dados do Infopen 2019, o Brasil tem 722.276 pessoas cumprindo medidas de privação de liberdade para apenas 436.815 vagas. Ou seja, as prisões só poderiam abrigar 60% do total atual de internos. Desses presos, 252 mil são provisórios e ainda não foram julgados.

A Rede de Observatórios levantou dados sobre superlotação nos estados que formam a Rede — Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.  A situação é crítica: os sistemas penitenciários dos cinco estados da Rede tem 362 mil presos e as vagas são só 207 mil. Os sistemas penitenciários de Pernambuco e Ceará são os que mais sofrem com superlotação, abrigando um total de internos mais de 170% acima da sua capacidade. Os dados foram reunidos no relatório “Coronavírus e o sistema prisional: crise à vista“.

Nos cinco estados, mais de 46 mil presos vivem em unidades que não contam com um único consultório médico. O caso é especialmente grave nas unidades de presos provisórios em Pernambuco: de 64 estabelecimentos, apenas 11 (17%) possuem consultório. Vale notar que presos e presas tem imunidade, em geral, baixa, com alta incidência de tuberculose e outras doenças.  Celas para observação de doentes e farmácias também inexistem em parte significativa das unidades prisionais. 

A crise gerada pelo novo coronavírus exige medidas fortes, criativas e de amplo alcance. O Estado é responsável pelas vidas dos que estão sob a sua custódia, e precisa agir com firmeza para evitar que a epidemia leve as mortes por doenças nas prisões a novos e vergonhosos recordes.

Foto de Wilson Dias/ Agência Brasil

O que sabemos sobre a queda nos homicídios

Por Ricardo Moura*

Após atingir recordes históricos, os índices de homicídio no Ceará em 2019 deverão fechar a patamares semelhantes ao de dez anos atrás. Não é pouca coisa. Compreender as causas desse fenômeno tão complexo, contudo, ainda é uma tarefa a ser cumprida. Querer cravar alguma verdade absoluta sobre essa redução em tão pouco tempo não passa de um sinal de desonestidade intelectual ou de prepotência. É preciso abordar as várias dimensões da violência letal para que possamos avançar no seu entendimento.

Dito isso, a coluna apresenta os primeiros achados de uma investigação ainda em curso que busca estabelecer uma relação entre números de presos e quantidade de assassinatos. Assim como não é mais possível entender a segurança pública sem passar pelo sistema prisional, também soa incompleta qualquer explicação sobre a dinâmica dos homicídios que deixe de lado o que ocorre nas prisões.

No período que compreende os anos de 2010 até novembro de 2019, a população prisional no Ceará aumentou 97,2%, saltando de 15.201 para 28.967 presos. Nesse mesmo intervalo, o número de homicídios chegou a subir 90%, em 2017, mas deverá fechar 2019 no menor patamar da década. Quando os dois indicadores são confrontados, é possível perceber uma correlação positiva, tratando-se de um indício que não pode ser desprezado nesta análise.

Enquanto os assassinatos alternaram entre períodos de crescimento (2010 a 2014) e de queda (2016 e 2018), a quantidade de presos no Estado só aumentou ao longo dessa época. A exceção é justamente este ano, quando há uma redução de 3,3% da população carcerária na comparação com 2018. Em uma lógica de confronto aberto entre grupos criminosos rivais, podemos afirmar que tanto agressores quanto vítimas em potencial estejam encarcerados neste momento, reduzindo a pressão sobre os circuitos de vingança e retaliação que alimentam a violência letal.     

Há outro fator a ser considerado: a própria estruturação criminal que se consolidou nos últimos anos está em xeque. Em março de 2018, O POVO traçou um perfil das organizações criminosas presentes no Ceará. Os membros do Comando Vermelho (CV) eram estimados em 9.056 naquela época e 663 pessoas seriam filiadas à Família do Norte. Os Guardiões do Estado (GDE), por sua vez, contavam com 5.718 pessoas, enquanto 3.230 seriam vinculados ao Primeiro Comando Capital (PCC). Após as prisões ocorridas nas duas séries de ataques, em janeiro e em setembro, qual é o retrato atual da composição de tais organizações? Como vem se dando o processo de sucessão no interior desses grupos?

Na semana passada, a operação “Reino de Aragão”, da Polícia Federal, teve como objetivo o cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão e 31 mandados de prisão preventiva no Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Paraná. Em entrevista dada ao Diário do Nordeste, o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF, delegado Samuel Elânio, decretou o fim próximo do Guardiões do Estado. O argumento leva em consideração a dificuldade enfrentada pelo grupo no que se refere à gestão de armamentos e de recursos financeiros.

É nítido que houve um impacto a partir das prisões dos líderes do grupo, mas isso precisa ser investigado de forma mais detalhada. Se uma facção perde espaço, quem ocupará seu lugar? Como na política, não existe vácuo no crime. Coincidência ou não, práticas como decapitação e desova de corpos com membros amarrados voltaram a ser observadas nas ruas. Estamos assistindo a um novo reordenamento em torno do crime-negócio no Estado?

P.S. A expressão “crime-negócio” – que compreende o crime a partir de uma lógica empresarial – é uma referência à obra da antropóloga Alba Zaluar, falecida em dezembro, aos 77 anos. Uma das precursoras no estudo da criminalidade, a autora conferiu novos sentidos às práticas criminais, provocando uma verdadeira revolução no modo como entendemos a violência urbana.

*Ricardo Moura é pesquisador do Observatório da Segurança — Ceará e colunista do jornal O Povo