Rede de Observatórios de Segurança

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Maranhão e Piauí serão monitorados pela Rede a partir do segundo semestre

A partir de agosto, Maranhão e Piauí passam a integrar a Rede de Observatórios da Segurança. Os estados se juntam a Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo na produção de dados cidadãos. A iniciativa completa dois anos com a marca de 31.535 eventos violentos monitorados nos cinco estados – o que equivale a um caso a cada 33 minutos – divulgada do relatório A vida resiste: além dos dados da violência.

O  monitoramento é feito a partir do que circula nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre violência e segurança pública. São 16 indicadores e tradicionalmente ações policiais e eventos com armas de fogo ocupam a maior parte do noticiário policial.  Mas o feminicídio e a violência contra a mulher – o terceiro maior dado monitorado na Rede – vem ganhando espaço no noticiário. A imprensa passou a nomear o problema. As pesquisadoras da Rede de Observatórios conferem diariamente dezenas de veículos de imprensa, coletam informações e alimentam um banco de dados que posteriormente é revisado e consolidado.

A Rede surgiu para suprir a ausência ou omissão do Estado em produzir e divulgar amplamente dados confiáveis e de qualidade para que políticas públicas sejam avaliadas. É projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, e foi a primeira iniciativa a monitorar operações policiais no Brasil. 

No Maranhão, o trabalho começa com um olhar profundo para a periferia, com o apoio da Rede de Estudos Periféricos, que atua na Baixada Maranhense com pesquisadores de origem periférica, ligada atualmente a duas instituições de ensino e pesquisa no Maranhão: a Universidade Federal do Maranhão – UFMA e o Instituto Federal do Maranhão – IFMA. Já no Piauí a parceria é com o Nupec – Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens, da Universidade Federal do Piauí – UFPI, uma iniciativa que já tem uma trajetória de 20 anos.  

Existem dinâmicas novas e preocupantes em curso, com movimentações de facções, novos tipos de violência em bairros periféricos, execuções de adolescentes e jovens concentradas em algumas áreas. Além disso, um motivo forte da escolha dos dois novos estados foi a presença de núcleos de pesquisa comprometidos com a formação de pesquisadores jovens das periferias e da agenda contra o racismo dentro das próprias trajetórias institucionais.

A Rede de Estudos Periféricos e o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens se unem a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop); Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC) e ao Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP). O objetivo é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos. 

Dois anos de Rede

Ações policiais, eventos com armas letais e violência contra mulher são os maiores registros da Rede de Observatórios da Segurança nos seus dois anos de existência nos cinco estados monitorados. É o que mostra o relatório A vida resiste: além dos dados da violência lançado neste mês de julho. A publicação traz detalhes dos eventos violentos monitorados. O  monitoramento é equivalente ao período de junho de 2019 até maio de 2021.

A polícia da Bahia se mostra a mais letal do Nordeste com 461 mortes. O estado também lidera o número de chacinas (74) na região – Dentre os estados monitorados, fica atrás apenas do Rio de Janeiro com 92 . Pernambuco é o estado mais perigoso para ser jovem com 165 mortes de crianças e adolescentes. Já Ceará é o estado mais perigoso para LGBTQIA+ com a maior taxa de violência contra essa população. São 6 casos por milhão de habitantes, uma taxa três vezes maior que a de São Paulo. 

Rede registra um caso de violência a cada 33 minutos

  • 57% dos 31.535 registros de violência em dois anos são ações policiais  
  • RJ teve 8 ações policiais por dia em 2021, mesmo com proibição do STF 
  • Bahia tem a polícia mais letal do Nordeste e é o segundo estado em chacinas
  • PE dobrou o número de ações policiais e tem maior taxa de violência contra crianças
  • Ceará lidera a taxa de violência LGBTQIA+, dados oficiais não são divulgados
  • SP é o estado com mais casos de violência contra mulher e tem alta de estupros este ano
  • Rede começa a operar em dois novos estados em agosto: Maranhão e Piauí

Ações policiais, eventos com armas letais e violência contra mulher são os maiores registros da Rede de Observatórios da Segurança nos seus dois anos de existência nos estados da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. É o que mostra o relatório A vida resiste: além dos dados da violência que será lançado nesta quinta-feira, dia 22. A publicação traz detalhes dos 31.535 eventos violentos monitorados – o equivalente a um caso a cada 33 minutos. O  monitoramento é feito a partir do que circula nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre violência e segurança e equivale ao período de junho de 2019 até maio de 2021.
A Rede foi a primeira iniciativa a monitorar operações policiais e nasceu como uma forma de responder aos problemas de falta de transparência e de abertura de dados sobre criminalidade e violência. Ao todo, temos 18.037 registros de ações policiais em dois anos. Nos primeiros cinco meses de 2021, houve aumento generalizado no número de eventos monitorados pela Rede. Houve aumentos de 13% no número de ações de policiamento, de 6% nos eventos envolvendo armas de fogo e aumento de 26% no número de casos de violência contra a mulher e feminicídios. Pernambuco foi o estado que registrou o maior aumento de casos (77%), seguido de São Paulo (39%) e Rio de Janeiro (23%).

São 16 indicadores monitorados e tradicionalmente ações policiais e eventos com armas de fogo ocupam a maior parte do noticiário policial.  Mas o feminicídio e a violência contra a mulher – o terceiro maior dado monitorado na Rede – vem ganhando espaço no noticiário. A imprensa passou a nomear o problema.  As pesquisadoras da Rede de Observatórios conferem diariamente dezenas de veículos de imprensa, coletam informações e alimentam um banco de dados que posteriormente é revisado e consolidado. 

A Rede surgiu para suprir a ausência ou omissão do Estado em produzir e divulgar amplamente dados confiáveis e de qualidade para que políticas públicas sejam avaliadas. Desenvolvemos parceria com movimentos sociais e por isso assinam textos no relatório #AVidaResiste os grupos: Labjaca, Juventude Ativista de Cajazeiras, Mães pela Diversidade, Marcha das Mulheres Negras de São Paulo e Comunidade Assumindo Suas Crianças. Esses dois anos de existência mostraram que a sociedade civil não pode deixar de produzir dados. 

Bahia tem maior número de chacinas e letalidade policial no NE

A Bahia registra o maior número de mortes em operações (461) com a polícia mais letal do Nordeste. O estado também lidera o número de chacinas na região com 74 casos e no quadro geral perde apenas para o Rio de Janeiro que registrou 92 chacinas. 

Dentre os estados da Rede de Observatórios, a Bahia é o que possui a maior porcentagem de operações policiais motivadas pela repressão ao tráfico de drogas: foram 824, que equivalem a 36% do total de ações entre junho de 2019 e maio de 2021. A polícia militar é a principal força envolvida. 

Ceará apresenta maior taxa de violência LGBT+

O Ceará chama atenção pela taxa de casos de violência contra LGBT, são 50 registros com 6 casos por milhão de habitantes. Enquanto São Paulo, com  81 registros, tem 2 casos por milhão de habitantes. Vale lembrar que o estado não apresentou esses dados para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e que observamos que esse tipo de violência chega cada vez mais cedo para as vítimas. Como aconteceu com Keron Ravach, de apenas 13 anos, que se tornou a adolescente trans mais nova a ser assassinada no estado.

Ceará apresenta a maior taxa de violência LGBTQIA+ entre os cinco estado. Foto: Arthur Souza

Outro fator importante é que o estado também lidera o número de registros de ações e ataques de grupos criminais dentre os estados monitorados pela Rede. Foram registrados 155 eventos, enquanto o segundo estado com mais eventos desse indicador, a Bahia, teve 23 registros.

Pernambuco é o estado mais perigoso para os jovens

Pernambuco se mostrou o estado mais perigoso para ser jovem, liderando o número de homicídios de pessoas até 18 anos entre os cinco estados. Também é importante destacarmos o aumento de 78% de casos de abuso sexual de crianças e adolescentes no segundo semestre de 2020. O contexto de pandemia foi um fator que contribuiu para a elevação dos eventos, tendo em vista que essas crianças e adolescentes passaram a ficar mais tempo dentro de casa 

Outro ponto de destaque são os eventos de linchamento liderados pelo estado. São 56 registros em dois anos. Na maioria dos casos não há informações sobre a vítima. Mas nos 25 casos que possuem informação, em 21 as vítimas são pessoas negras.

Rio de Janeiro

No Rio, foram 5.617 ações da polícia, com 856 mortes e 727 feridos. Só em 2021, o estado registrou oito operações por dia – mesmo com a vigência da proibição do STF, com 189 mortes nas operações monitoradas.  O estado lidera o número de chacinas com 92 registros e 388 vítimas fatais em dois anos – entre elas está registrada a chacina do Jacarezinho, a maior chacina policial da história do estado. 

Ainda no estado, 388 agentes foram vitimados e 130 mortos. Chama atenção o fato de que mais da metade dos policiais foram vitimados fora de serviço. Outro ponto é a falta de informação racial desses policiais mortos em todos os estados, 86% deles não têm a cor informada. O que mostra a indiferença entre cor e raça das vítimas.

Chacina do Jacarezinho foi a maior chacina policial do estado do Rio de Janeiro. Foto: Bruno Itan

São Paulo 

São Paulo concentra a maior parte dos registros da Rede e quase metade dos eventos de feminicídio e violência contra a mulher são no estado, que lidera o indicador com 1.375 registros. Neste ano, além de um aumento de 67% de registros, também houve um aumento de 44% nos registros na categoria violência de sexual. Em 2021, 373 mulheres foram vítimas de violência no estado. Sabemos que esses números são subnotificados, pois os nossos dados se baseiam no que é publicado na imprensa e nem todos os casos chegam aos jornais. 

O estado apresenta o maior número de ações policiais (6.184) e o maior registro de abuso de agentes do estado. No segundo semestre de 2020, apenas em São Paulo,  as agressões por parte dos agentes aumentaram em 156%; 

Novos Observatórios

Após dois anos operando na produção cidadã de dados em cinco estados, a Rede de Observatórios,  projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, chega ao Maranhão e ao Piauí no segundo semestre deste ano. A Rede de Estudos Periféricos, da UFMA e IFMA, e o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens, da UFPI se unem a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop); Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC) e ao Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP). O objetivo é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos. 

Leia o relatório completo neste link.

A transfobia é estrutural e nossas crianças são ensinadas a instrumentalizar o ódio

Por Dália Celeste*
Imagine  você pedir para ir ao banheiro e ser morta a facadas, estar  no terminal de ônibus e ser queimada viva ou pedir uma informação e ter o rosto deformado. Mulheres trans e travestis foram mortas assim em um intervalo de 20 dias. Esses casos não se resumem apenas em números, são pessoas com uma história, sonhos que deixarão de ser realizados, famílias em luto. São crimes que representam uma cultura de extermínio desses corpos.

No dia 18 de Junho, Kalyndra Selva Guedes Nogueira da Hora, mulher trans, negra, de 26 anos, foi encontrada morta dentro de sua casa, no bairro de Ipsep, em Recife. Ela foi vítima de asfixia e o seu companheiro é o principal suspeito. Kalyndra era artista e apresentava em muitos eventos na noite da cidade, fazia shows sempre reivindicando e trazendo a arte como resistência. Bastante ativa nos espaços LGBTQIA+. A performer que alegrava tantas vidas,teve a sua vida ceifada de forma brutal pelo transfeminícidio.

Menos de uma semana depois, no dia 24, a travesti Roberta da Silva, de 32 anos, foi incendiada viva no Cais de Santa Rita, um dos terminais mais movimentados do centro da cidade do Recife.  Ela teve 40% de seu corpo queimado. Roberta era uma travesti preta em situação de rua, estava dormindo quando sofreu o ataque de um adolescente. Devido a gravidade das queimaduras, teve seus dois braços amputados e ficou alguns dias internada no Hospital da Restauração. Infelizmente, Roberta não aguentou e faleceu na manhã do dia 09 deste mês. Sua morte, causada por um adolescente, nos faz entender que vivemos em uma estrutura que é transfóbica e que ensina crianças e adolescentes como instrumentalizar o ódio às travestis e pessoas trans.


No começo de julho, dia 05, a travesti negra Crismilly Pérola foi assassinada com um tiro na cabeça, na Comunidade Beira Rio, na Várzea, em Recife. Conhecida como Piu Piu, Crismilly era cabeleireira e bastante querida no bairro a qual era moradora. Antes de ser morta, a mesma sofreu agressões causadas por pauladas. Ela contou à mãe que sempre sofreu xingamentos no meio da rua.

Em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste de Pernambuco, Fabiana da Silva Lucas, de 30 anos, foi assassinada na madrugada de 7 de julho. A vítima pediu informações para ir ao banheiro, quando um homem a seguiu e matou com diversas facadas. Fabiana foi encontrada morta às margens da rodovia PE-160, com partes de suas roupas rasgadas, ela foi surpreendida violentamente sem a possibilidade de se defender. 

Desde a infância, corpos trans e travestis são colocados em uma lugar de desumanização e desigualdade, reproduzindo assim, a crença do ódio e do extermínio. O homem que mata uma mulher trans e travesti, não mata por vergonha do desejo a este corpo, ele mata por não saber lidar com o desejo de um corpo que desde sua infância foi ensinado a odiar.

E, em pouco mais de 20 dias, foram quatro mortes e cinco tentativas de transfeminicídio no estado de Pernambuco. No último ano, o estado foi o sétimo mais perigoso para travestis e mulheres trans viverem, de acordo com a Antra.

No mesmo dia da morte de Roberta, enquanto ainda sentíamos a dor da sua partida, a travesti e a enfermeira Fernanda Falcão, de 28 anos, sofreu uma tentativa de transfeminicídio, dentro de sua própria casa, na cidade de Paulista, Região Metropolitana do Recife.


“Quatro homens chegaram em duas motos. Um deles subiu a minha escada com a arma na mão e chutou minha porta, que não cedeu. O pessoal da minha rua veio intervir por mim, ele desceu correndo e foi embora. Passei a noite toda na delegacia, onde fiz corpo de delito e prestei queixa. Consegui apoio de uma entidade, que me acolheu e me colocou em um lugar seguro. Estou escondida. Eu acredito que tenha sido uma represália porque não tenho problema com ninguém, nem desavença com ninguém. Sou muito bem quista na minha comunidade ”, relata.

Esse ataque fez com que Fernanda decidisse entrar na justiça com um pedido de morte assistida. Ela deseja tomar remédios para morrer sem dor. “É pelo sentimento e pela certeza de que vou ter uma morte brusca. A certeza que minha mãe vai poder ver meu corpo pelo menos limpo, em um caixão, para que eu não dê o desgosto da minha família me pegar no meio do mato, no meio da rua, toda esfaqueada. É para ter dignidade pelo menos nesse momento ”, explicou em uma conversa com o Jornal do Comercio.

Fernanda é uma grande ativista para as mulheres trans e travestis no estado, consultora do Conselho Estadual de Direitos Humanos, do Comitê Estadual de Prevenção ao Tráfico de Pessoas e do Mecanismo Estadual de Combate à Tortura. Coordenadora da Rede Nacional de Travestis e Transexuais e Homens Trans Vivendo e Convivendo com HIV. Ela é atuante no Projeto Mercador de Ilusões, que auxilia profissionais do sexo. Mesmo ocupando esses espaços, nada garante segurança a sua  vida.

É preciso políticas de segurança pública para essa população, medidas de inclusão nos espaços sociais de forma humanizada, para dessa forma, reduzir os danos de corpos trans e travestis lançados dentro dos espaços de marginalização e execução. Isso é urgente. 

Mandatos  e movimentos sociais do Recife, Olinda e Paulista encaminharam pedidos de políticas públicas específicas para à comunidade LGBTQIA+. A Prefeitura do Recife também criou um edital para a Casa de Acolhida , com o nome de Roberta Silva. Mesmo que seja importante essa medida, a qual é uma grande conquista dos movimentos sociais e ativistas do estado, é necessário que seja estabelecido um diálogo com essa população de forma mais compacta.

É preciso que o estado e o governo se responsabilizem pela morte de pessoas trans e travestis. A transfobia estrutural nos nega espaços de empregabilidade, educação, vínculos afetivos e sociais, o amor e o afeto. Esse é um problema que não é de nossa responsabilidade. A cisgeneridade precisa se responsabilizar pelo processo de extermínio e exclusão de nossos corpos.

** Dália Celeste é pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança

Julho das Pretas: mulheres negras transformam relações sociais

Luciene Santana*

A forma como as mulheres negras têm suas vidas atravessadas pelo racismo estrutural e diversas violências – assim como suas agendas de lutas – fica em evidência durante todo o mês de julho. No Julho das Pretas, celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha no dia 25 . Nesse mês, ressaltamos a importância da luta das mulheres enquanto um processo de transformação radical das relações sociais em sua totalidade. São diversas ações de empoderamento, enfrentamento da violência, do machismo, racismo, LGBTQI+ fobia.


Neste ano, vamos discorrer sobre os desafios enfrentados pelas mulheres negras no Brasil no contexto após um ano vivendo a pandemia de Covid 19. É preciso colocar no centro da análise a imbricação entre gênero, raça e classe. Portanto, buscamos um olhar “interseccional” para compreender a multiplicidade dessas categorias e a dinâmica de dominação.
Lembro que no Brasil, as mulheres negras já estavam inseridas em situação de vulnerabilidade antes mesmo da pandemia, mas enfrentamos agora um agravamento desse quadro. Segundo dados da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, cerca de 6,4 milhões de homens e mulheres negras perderam seus empregos, enquanto o número de pessoas brancas nessa circunstância somam cerca de 2,4 milhões. Somos os mais atingidos.
Ocupamos também ofícios realizados majoritariamente de maneira presencial, como por exemplo o trabalho doméstico e a informalidade, estamos mais expostas ao vírus – lembro que negros são os que mair morrem pelo coronavírus. Olhando para o perfil dessas trabalhadoras, podemos refletir o porquê desse trabalho se constituir como um espaço “invisível”, que pouco se fala, mas quando se fala emergem diversos conflitos.

O auxílio emergencial que deveria amenizar os problemas causados pelo desemprego e poucas possibilidades de renda, teve diversas dificuldades no cadastramento, acesso e posteriormente teve o seu valor inicial reduzido. O que impactou a renda de muitas mulheres negras, principalmente aquelas que são a única fonte de renda das suas famílias. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o percentual de domicílios brasileiros comandados por mulheres saltou de 25%, em 1995, para 45% em 2018 – uma tendência crescente.

No boletim A Dor e a Luta: números do feminicídio, da Rede de Observatórios da Segurança, vimos que o isolamento social agravou a situação de violência contra as mulheres, que passaram a ter mais tempo de convívio com o agressor e menos acesso as redes de proteção. Tendo a rede registrado em média cinco casos de feminicídios e violências contra mulheres por dia em 2020. A Rede monitora os casos que saem no jornal e o recorte racial geralmente só aparece quando as vítimas são brancas e na maior parte dos casos não temos essa informação na imprensa. Somos silenciadas até mesmo na morte. Por outro lado, de acordo com os dados da violência do G1, no primeiro semestre de 2020, 75% das mulheres assassinadas no primeiro semestre de 2020 no Brasil são negras – nesse dado falamos de casos de feminicídio e homicídios de mulheres.

Em termos gerais, entendo a partir desses indicadores que os dados refletem as desigualdades que perpassam a trajetória de vida das mulheres negras. Nós não temos nossas demandas acolhidas pelas instituições. A presença do racismo institucional impede nosso acesso em razão do desconhecimento, do preconceito e da discriminação racial. Tudo o que foi aqui dito reforça a importância do julho das pretas como estratégia de fortalecimento e organização para enfrentar estruturas construídas social e historicamente. Resistimos! Viva a mulher negra latino-americana e caribenha!

*Luciene Santana é pesquisadora do observatório da Bahia

O que mudou depois de um mês que balas de borracha cegaram homens negros?

Por Maria Clara D’Ávila*

Há um mês nos deparamos com cenas lamentáveis provocadas pela polícia pernambucana durante uma ato que pedia por vacinas e que o presidente fosse responsabilizado pelas mortes por covid no Brasil – que já passam de 500 mil. Hoje, muitas perguntas ainda restam sem respostas sobre o episódio.

O governo do estado disse ser contrário às ações daquele dia, que deixaram, dentre outras pessoas feridas, dois homens negros parcialmente cegos ao serem atingidos por “balas de borracha”. As medidas tomadas até agora se voltam prioritariamente para o afastamento de policiais, sem ter exata transparência sobre a arquitetura estatal que fez com que uma operação dessa fosse possível e aceitável de ser realizada.

As primeiras notícias revelando a ação desastrosa da polícia mencionaram o ataque a uma vereadora. Isso abriu caminho para a construção da narrativa de que a polícia foi quem iniciou os ataques. Mas a investigação do que ocorreu – e a identificação de quem partiu a ordem – é importante não apenas para a responsabilização dos culpados, mas também para que o mesmo não ocorra novamente.

E, para isso, a resposta que foi dada até agora, de responsabilização de condutas individuais de alguns policiais – e ainda assim faltando transparência sobre quem são e as condutas a eles atribuídas – é insuficiente. As perguntas que estão sem respostas são as que nos levam a questionar a estrutura. São sobre os gastos envolvendo essas operações, que são a regra e não exceção; São sobre a necessidade de alocar um aparato policial envolvendo dezenas de policiais armados para acompanhar uma manifestação pacífica; São sobre a legalidade de se utilizar armamentos menos letais de forma indiscriminada.  

As ações violentas da polícia para reprimir protestos não são recentes, nem inéditas desse momento histórico. É importante observar quem foram justamente as duas vítimas escolhidas para serem alvos dos tiros que atingiram duas pessoas no ato: homens pretos, pobres, trabalhadores, responsáveis pelo sustento de suas famílias. É esse o perfil do alvo da violência policial e também da criminalização seletiva. Em razão da violência seletiva ser socialmente aceita e legitimada, é que essas vítimas são escolhidas para corroborar com a narrativa da polícia de que feriram e prenderam apenas “desordeiros”. 

A “sorte” nesse caso foi que toda a conduta foi filmada e com testemunhas. A “sorte” foi que uma vereadora sofreu violência policial nesse mesmo contexto. Só assim para a opinião pública e até o chefe do poder executivo estadual ficar ao lado das vítimas da violência. 

Mas e quando não existem essas “sortes”? O que tem sido feito e o que será feito para impedir que esses atos sejam repetidos, sejam em manifestações, sejam em comunidades, favelas e periferias. O que temos feito? Qual a memória que temos das vítimas de violência policial no Estado? O que o Estado tem feito para prestar apoio às famílias de vítimas de letalidade policial? Qual indenização tem sido proposta a elas? E as pessoas que seguem sendo criminalizadas, seja em razão do território em que vivem, da cor da sua pele, do tipo de drogas que usam? O que tem sido pensado para a segurança pública na perspectiva de garantia de direitos e não para uma segurança voltada para o genocídio da população negra? Quais têm sido, de fato, as medidas de não repetição adotadas para o fim da violência policial?

Nós, enquanto sociedade civil, propomos ao Governo do Estado uma minuta de decreto que proíbe expressamente o uso de elastômero (balas de borracha) por forças policiais nas manifestações e em outros eventos similares. Estamos ainda aguardando a resposta do governo, que afirma repudiar esse tipo de violência, para que publique a medida. Mas sabemos que ainda assim é apenas uma medida dentre tantas urgentes, no longo processo de mudanças estruturais que de fato almejamos.

As respostas sobre as investigações sobre a violência policial cometida no ato #ForaBolsonaro do dia 29 de maio no Recife devem apontar caminhos concretos para garantir justiça, memória, reparação e não repetição. Seguiremos cobrando essas respostas e reivindicando a garantia do direito aos protestos, à vacina no braço e à comida no prato.

** Maria Clara D’Ávilla é assessora jurídica do GAJOP


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