Rede de Observatórios de Segurança

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Categoria: Operações policiais

Sociedade civil cobra ações do MPRJ para conter violência policial

Um grupo de parentes de vítimas da violência, pesquisadores de segurança pública e representantes da sociedade civil entregou uma carta aberta ao Procurador Geral de Justiça, Eduardo Gussen, ontem, em audiência na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro. O encontro foi na sede do MPRJ e teve participação de integrantes do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Anistia Internacional Brasil, Casa Fluminense, Fórum Grita Baixada, Movimento Parem de Nos Matar e coletivo Papo Reto. Também participaram Luciene Silva, da Rede de Mães e Familiares de Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense, e Fernanda Viana, moradora da Nova Holanda, na Maré.

A carta entregue pelo grupo reivindica que o MPRJ investigue todas as mortes decorrentes de ações de agentes do estado; crie um plantão para atendimento ao cidadão; estabeleça estruturas de investigação  independentes desses crimes; garanta a participação da sociedade civil na discussão de soluções para a redução das mortes violentas e demais violações de direitos por forças de segurança; e responsabilize gestores estaduais que utilizem uma retórica de incentivo à violência.

O procurador Eduardo Gussen recebe carta assinada pelas organizações que participaram do encontro

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), houve 1.249 mortes decorrentes de intervenção policial nos primeiros oito meses de 2019, 16% a mais do que as 1.075 registradas no mesmo período de 2018. Mantida essa tendência, as polícias fluminenses deverão superar as 1.534 mortes registradas ano passado, o total mais alto contabilizado desde o início da série histórica, em 1998.

No encontro, os participantes relataram ao Ministério Público ocorrências que nem sempre são divulgadas pelos jornais. Fernanda Viana, da Maré, deu um depoimento sobre como operações policiais impactam o cotidiano dos moradores de favelas. “Quando começa a operação, você não pode sair. Tem de comer o que já tem casa, não sai para trabalhar. Se você sair, é associado a algo ilícito. A polícia age de forma ilegal, ela julga e executa”, disse a estudante de Serviço Social.

Thainã Medeiros, do Coletivo Papo Reto, revelou que o grupo contabiliza os disparos no Complexo do Alemão ano passado. “Em 71% dos dias foi ouvido um tiro em algum lugar do Complexo. Se isso acontecesse aqui, agora, nós provavelmente encerraríamos essa reunião. Lá, isso está sendo naturalizado”, criticou. Ele também mencionou as operações que impedem a circulação dos moradores: recentemente, uma mulher em trabalho de parto não pôde ir para o hospital até o fim da atuação dos policiais na sua localidade.

Luciene Silva e Adriano Araújo falaram sobre a violência na Baixada Fluminense. Luciene relatou que grupos de milicianos adotaram a prática de ocultar os cadáveres de mortos, evitando o registro dos homicídios. “A milícia está sumindo com os nossos jovens”, disse ela. “Diariamente temos informações de execuções sumárias. Essa semana, em Miguel Couto, três jovens foram executados com tiros na nuca ao lado da unidade da polícia”, completou Adriano.

Em resposta, o procurador Gussen prometeu que o MP estudaria as propostas e disse questionou autoridades estaduais sobre a violência de policiais. Andrea Amin, coordenadora do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), informou que o MPRJ já se manifestou aos órgãos de segurança: “Nós já expedimos ofícios aos secretários de Polícia Militar, de Polícia Civil e ao governador cobrando as providências que irão tomar para reduzir a letalidade policial no Rio de Janeiro. Eles terão 30 dias para ofertar uma resposta. Se esta não for apresentada, nós vamos reiterar com prazo menor. Não sendo apresentada, aí passamos para outra etapa, que é o poder de recomendar que se apresente um plano de redução dessa letalidade. E, se isso não for feito, vamos judicializar uma medida”.

Ao fim do encontro, os representantes da sociedade civil fizeram um balanço positivo, mas ressaltaram que a reunião marcou o início das reivindicações. Luciene Silva ressaltou a importância da abertura do MP ao debate com a sociedade, como mostra este vídeo.

“Esperamos que a partir desse encontro seja possível ampliar o diálogo da sociedade civil com o Ministério Público e que eles atendam às nossas demandas. O MP não pode deixar de intervir em um contexto tão grave, em que a letalidade policial chega a níveis intoleráveis, as operações estão deixando moradores de áreas da cidade acuados e governantes fazem um discurso que incita à violência”, comentou a coordenadora do CESeC e da Rede de Observatórios da Segurança, Silvia Ramos.

“Basicamente, estamos solicitando que o Ministério Público cumpra a sua função, garantindo a redução da letalidade policial, a participação e o cumprimento de decisões internacionais, para que o Estado Brasileiro não seja aquele que mata e aterroriza a sua população”, disse a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werkeck.  

Fernanda Viana, moradora da Maré, foi uma das familiares de vítimas de violência policial que participaram do encontro

Leia abaixo um trecho da carta:

“A atuação dos  organismos de segurança pública no RJ, sob orientação direta do governador, não se caracteriza por excessos eventuais ou iniciativas de policiais que desobedecem um comando. O já apontado aumento da letalidade policial e as violações de direitos dos cidadãos são consequência direta de uma estratégia de segurança voltada ao extermínio.

Entendemos que o MPRJ vem empreendendo esforços no sentido de exercer o seu papel constitucional de controle externo das polícias, através da criação do GAESP e da produção de análises pelo Centro de Pesquisas do MPRJ. Por isso, confiamos que, neste momento de grave crise institucional e de direitos humanos e constitucionais, o Ministério Público irá atuar de forma inequívoca em favor dos cidadãos fluminenses, particularmente os que vivem em condições de vulnerabilidade social e econômica.”

Veja a íntegra da carta aqui

Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência se manifesta sobre escalada de violência policial no RJ

Leia abaixo o manifesto da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos contra a política do governo do Estado e o aumento da violência policial no Rio de Janeiro.

A Rede Fluminense contra a Violência é formada por centros de pesquisa vinculados a universidades como UFRJ, UFF, UERJ, PUC, UCAM e outras instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro. Muitos de nós estudam o problema da violência e da segurança pública em nosso estado há mais de vinte anos. É por essa trajetória que manifestamos publicamente nosso repúdio ao direcionamento do governo do estado para a segurança no Rio de Janeiro.


O cenário em que vivemos hoje, apenas nove meses após instalado o governo de Wilson Witzel, envergonha e impõe a mais veemente rejeição por parte daqueles que guardam compromisso com a democracia e com a solidariedade social. Sob o argumento de que combate o crime organizado, o governo do estado encampa o maior volume de mortes produzido pelas forças de segurança num estado brasileiro.


As polícias do Rio de Janeiro mataram oficialmente 1249 pessoas de janeiro a agosto de 2019. Em lugar de prover segurança, o Estado promove terror e morte nas áreas mais pobres das cidades.


As condições a que são levados os policiais não são muito melhores. Instrumentos da lógica da guerra apreciada pelo governador, esses servidores públicos estão expostos a condições brutais e extremamente perigosas de trabalho. Só no ano de 2019, 44 policiais perderam suas vidas, sendo 14 em serviço. As consequências do alto nível de estresse a que estão expostos são difíceis de ser mensuradas, mas nem por isso deixam de ser graves. Também não somos capazes de estimar o estrago psíquico e emocional provocado em populações que vivem sob a perspectiva permanente do confronto armado, mas é certo que ele deixará sua marca na sociedade fluminense por muitos anos.


Todos estamos perdendo. A população radicada nas áreas mais pobres paga com a vida de sua juventude os desmandos a que o atual governador chama de política de segurança. As polícias fazem o trabalho sujo, e seus superiores hierárquicos tratam como perdas naturais e inevitáveis as mortes daqueles que ocupam lugares subalternos na corporação. Simulam reagir a isso produzindo mais mortes entre as camadas populares e distribuindo condecorações e elogios fúnebres. São todos responsáveis. O governador e seus subordinados devem responder legalmente pelo que estão fazendo.


É imperativo que a sociedade e os órgãos públicos competentes se unam para dar um basta nesse processo. Temos recursos de responsabilização e eles devem ser acionados já. As instituições do sistema de justiça podem e devem proteger a população das ações de um executivo estadual que viola a Constituição e os valores democráticos. A sociedade precisa colocar de volta a solidariedade no centro da vida coletiva, dizendo não à naturalização da morte, que está em curso no Rio de Janeiro.


Como Rede Fluminense de Pesquisas colocamos nossos projetos, levantamentos e conhecimento acumulado à disposição do Ministério Público, que tem o dever constitucional de controlar a atividade de polícia no Brasil, bem como à disposição dos sistemas de justiça nacional e internacional, da mídia e principalmente dos ativistas de favelas e periferias, que têm produzido importantes dados e análises, em parceira com as universidades ou em pesquisas independentes.

A Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos é formada por centros de pesquisa vinculados a universidades como UFRJ, UFF, UERJ, PUC, UCAM, FIOCRUZ e a outras instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro. Muitos de nós estudam o problema da violência e da segurança pública em nosso estado há mais de vinte anos. É por essa trajetória que manifestamos publicamente nosso repúdio ao direcionamento do governo do estado para a segurança no Rio de Janeiro.


O cenário em que vivemos hoje, apenas nove meses após instalado o governo de Wilson Witzel, envergonha e impõe a mais veemente rejeição por parte daqueles que guardam compromisso com a democracia e com a solidariedade social. Sob o argumento de que combate o crime organizado, o governo do estado encampa o maior volume de mortes produzido pelas forças de segurança num estado brasileiro.


As polícias do Rio de Janeiro mataram oficialmente 1249 pessoas de janeiro a agosto de 2019. Em lugar de prover segurança, o Estado promove terror e morte nas áreas mais pobres das cidades.


As condições a que são levados os policiais não são muito melhores. Instrumentos da lógica da guerra apreciada pelo governador, esses servidores públicos estão expostos a condições brutais e extremamente perigosas de trabalho. Só no ano de 2019, 44 policiais perderam suas vidas, sendo 14 em serviço. As consequências do alto nível de estresse a que estão expostos são difíceis de ser mensuradas, mas nem por isso deixam de ser graves. Também não somos capazes de estimar o estrago psíquico e emocional provocado em populações que vivem sob a perspectiva permanente do confronto armado, mas é certo que ele deixará sua marca na sociedade fluminense por muitos anos.


Todos estamos perdendo. A população radicada nas áreas mais pobres paga com a vida de sua juventude os desmandos a que o atual governador chama de política de segurança. As polícias fazem o trabalho sujo, e seus superiores hierárquicos tratam como perdas naturais e inevitáveis as mortes daqueles que ocupam lugares subalternos na corporação. Simulam reagir a isso produzindo mais mortes entre as camadas populares e distribuindo condecorações e elogios fúnebres. São todos responsáveis. O governador e seus subordinados devem responder legalmente pelo que estão fazendo.


É imperativo que a sociedade e os órgãos públicos competentes se unam para dar um basta nesse processo. Temos recursos de responsabilização e eles devem ser acionados já. As instituições do sistema de justiça podem e devem proteger a população das ações de um executivo estadual que viola a Constituição e os valores democráticos. A sociedade precisa colocar de volta a solidariedade no centro da vida coletiva, dizendo não à naturalização da morte, que está em curso no Rio de Janeiro.


Como Rede Fluminense de Pesquisas colocamos nossos projetos, levantamentos e conhecimento acumulado à disposição do Ministério Público, que tem o dever constitucional de controlar a atividade de polícia no Brasil, bem como à disposição dos sistemas de justiça nacional e internacional, da mídia e principalmente dos ativistas de favelas e periferias, que têm produzido importantes dados e análises, em parceira com as universidades ou em pesquisas independentes.

Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2019

Assinam (em ordem alfabética):

Aderson Bussinger -OAB/RJ
Alba Zaluar – UERJ
Ana Paula Miranda – UFF
Avelina Addor – UNIRIO
Bianca Garcia Neri Doutoranda – PPGSD/UFF
Caíque Silva- PPGP/UFRJ
Carolina Grillo – UFF
Claudio Tostes – ALERJ
Cristiane Dameda – UFRJ
Daniel Cerqueira – IPEA
Daniel Hirata – UFF
Daniel Misse – UFF
David Maciel de Mello NetoEdinilsa Ramos – FIOCRUZ/CLAVES
Eduardo Ribeiro
Fatima Cecchetto – FIOCRUZ
Fernando Rabossi – UFRJ
Haydee Caruso – UNB
Hebe Signorini Gonçalves – UFRJ
Jacqueline Muniz – UFF
Joana Vargas – UFRJ
João Trajano Sento Sé – UERJ
Julita Lemgruber – CESeC/UCAM
Katia Sento Sé Mello – UFRJ
Larissa Hecht – UFRJ
Laura Lowenkron – CLAM/IMS/UERJ
Leonarda Musumeci – IE/UFRJ
Luiz Eduardo Soares –
Luciano Cerqueira
Luiz Antônio Machado da Silva – UERJ
Marcelo Burgos – PUC
Maria Cecília de Souza Minayo – FIOCRUZ/CLAVES
Mariana Cavalcanti – ESP/UERJ
Michel Magalhães
Michel Misse – UFRJ
Miriam Abramovay – UERJ
Miriam Krenzinger – UFRJ
Nalayne M Pinto – UFRRJ
Pablo Nunes – CESeC/UCAM
Paula Poncioni – UFRJ
Paulo Baía – UFRJ
Pedro Cláudio Cunca Bocayuva – UFRJ
Renata Neder – ISER
Ricardo Gaspar Muller – UFSC
Rodrigo Andrade
Rodrigo Cerqueira Agueda
San Romanelli Assumpção – UERJ
Silvia Ramos – CESeC/UCAM
Tainá de Paula Kapaz – BR Cidades
Thais Lemos Duarte – UFMG
Tiago Joffily – FND/UFRJ
Vera Frossard – FIOCRUZ

Juan Santos

Bacurau é aqui

Por Ricardo Moura

O filme “O Som ao Redor”, primeira ficção de longa-metragem do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, retrata a difusa sensação de insegurança vivida em um bairro de classe média de Recife. Mesmo contando com cercas elétricas, muros altos e a supervisão de vigilantes de rua, os moradores de Boa Viagem sentem-se ameaçados diante da menor possibilidade de terem suas residências invadidas.

Em “Bacurau”, obra mais recente do cineasta, a invasão é real. Sem dar muitos detalhes sobre a trama, o filme aborda a história de um povoado do oeste pernambucano que se vê ameaçado por um grupo de caçadores fortemente armados cujas presas são seres humanos. O modo como a comunidade se organiza em torno da resistência aos invasores estrangeiros, a partir do uso de táticas e saberes ancestrais, tem servido como uma poderosa metáfora para o cenário político atual.

É preciso, contudo, que a gente se situe de forma mais precisa nessa comparação. Não somos o povo de Bacurau. Estamos mais para os moradores da Boa Viagem de “O Som ao Redor” que necessitam da atuação de um grupo de vigilantes/caçadores para nos sentirmos mais seguros.

Em minha tese de doutorado, demonstro como a prática da caçada humana foi uma estratégia adotada desde sempre no Brasil como forma de contenção dos “indivíduos perigosos”: da caça aos povos indígenas, passando pelos capitães do mato até chegarmos a uma polícia que bate recordes de letalidade ano após ano.

Não é preciso ir muito longe para comprovar essa realidade. Na noite da última sexta-feira, dia 13, um adolescente de 14 anos foi morto durante uma intervenção policial no bairro Vicente Pinzón. As versões sobre o ocorrido são divergentes. Conforme a família da vítima, Juan Ferreira dos Santos participava de uma festa na Praça do Mirante quando foi alvejado com um tiro na cabeça. Segundo a Polícia Militar, o tiro foi disparado em direção ao solo como uma tentativa de dispersar a multidão.

Embora os policiais afirmem terem sido recebidos com hostilidade não há indícios de que eles tivessem com suas vidas sob risco. O caso precisa ser investigado com rigor e cautela, mas as evidências iniciais são de que houve um emprego indevido de arma de fogo resultando na perda de uma vida.

Em 1990, a Organização das Nações Unidas (ONU) elaborou uma recomendação internacional para o uso de arma de fogo por agentes legais intitulada “Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de fogo (PBUFAF)”. Em sua disposição 9, o documento afirma que “os responsáveis pela aplicação da lei não usarão armas de fogo contra pessoas, exceto em casos de legítima defesa própria ou de outrem contra ameaça iminente de morte ou ferimento grave (…) Em qualquer caso, o uso letal intencional de armas de fogo só poderá ser feito quando estritamente inevitável à proteção da vida”.

Além disso, as disposições seguintes (de 12 a 14) ressaltam o direito universal de “participar de reuniões legítimas e pacíficas” e o cuidado em restringir a força e o uso de armas de fogo ao mínimo necessário na dispersão de grupos ilegais não-violentos e violentos.

Por óbvio que tais princípios são objeto de estudo no processo de formação dos agentes de segurança. No patrulhamento cotidiano, no entanto, parece que tais normas são deixadas de lado quando se trata de lidar com moradores que vivem em territórios de exceção como o povoado fictício de Bacurau. A Lei e a Ordem em tais lugares chegam quase sempre na forma de repressão e supressão de direitos individuais e coletivos. Essa situação não pode ser naturalizada. Como bem afirma a prima do adolescente assassinado: “Eles estão para proteger a gente, cidadão. Não matar cidadão. Se for atirar, atire para cima. Não atire no meio da população”.

A morte de Juan gerou protestos na comunidade, mas a indignação diante de casos assim precisa se espalhar por toda a cidade. Para uma boa parte dos moradores de Boa Viagem/Fortaleza, contudo, é como se o desejo mais profundo (e velado) fosse mesmo o de varrer os Bacuraus do mapa seja lá qual for o preço a ser pago.

Para quem vive nessa condição permanente de vulnerabilidade, resistência não é apenas um slogan político, mas a estratégia mais eficaz para se manter vivo. Os nossos bacuraus teimam em permanecer de pé mesmo diante de tanta má vontade. É urgente que possamos ouvir suas vozes a fim de fazer ecoar seu grito por justiça.

Ricardo Moura é jornalista, cientista social e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV / UFC). ricardoxmoura@uol.com.br

Mapa de operações no Rio de Janeiro e na capital

Operações policiais no Rio: helicópteros e mortes

Estudo feito pelo Observatório da Segurança RJ sobre operações de janeiro a junho de 2019 mostra ações mais frequentes e letais

As operações policiais no Rio de Janeiro estão mais letais, mais frequentes e mais assustadoras.  Esta é a conclusão do estudo realizado pelo Observatório da Segurança RJ, apresentado hoje pela manhã, na Universidade Candido Mendes,  no seminário “Operações Policiais no Rio de Janeiro: Existe um novo padrão?”.

O Coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança, Pablo Nunes, apresentou os principais números, resultado do monitoramento de quatro diários impressos, uma dezena de sites e portais online, paginas oficiais ligadas à polícia e mais de cem contas no Twitter. De janeiro a junho deste ano, o Observatório registrou 1.148 ações policiais: 568 operações (grupos de policiais destacados para cumprir um objetivo específico) e 580 ações de patrulhamento (ações cotidianas de ronda e do chamado “baseamento). Nessas operações, só 153 armas foram apreendidas (veja ao fim do texto o estudo completo).

Pablo Nunes, coordenador de Pesquisa, apresenta o estudo, ao lado de Silvia Ramos

A Região Metropolitana do Rio concentrou mais da metade das ações (54,6%), sendo a maioria delas na capital (31,7%); os municípios de Campos (6%), Barra Mansa (5,4%), São Gonçalo (5,1%) e Niterói (4,5%) também aparecem no ranking.

O estudo também comparou os dados de 2019 com os produzidos pelo Observatório da Intervenção em 2018. A comparação foi feita apenas nos meses de março a junho e com referência à Região Metropolitana do Rio. O levantamento mostrou um aumento de 42% no número das operações e 143% nas ações de patrulhamento.

Pablo Nunes chamou atenção para o fato de que, após o fim da Secretaria de Segurança Pública no governo estadual, as ações coordenadas tiveram queda vertiginosa. De março a junho de 2018, 29% das operações tinham participação de mais de uma força policial; em 2019, este percentual caiu para 3%. “As polícias estão atuando mais de maneira individual, autônoma. Isso não é bom, já que na nossa estrutura de segurança a Polícia Civil tem o papel de investigar e a Polícia Militar é responsável pelo policiamento ostensivo. Se elas não trabalharem juntas, as ações perdem efetividade”, analisou o pesquisador.

Em 2019, as ações policiais no estado também estão mais letais. O Observatório da Segurança RJ registrou 222 mortes de janeiro a junho deste ano, a sua maioria (68%) em operações policiais. Na RMRJ, verificou-se um aumento de 46% de mortes em operações policiais em relação ao ano passado (no período de março a junho). Em 2018 foram 82 mortes; esse ano, o número passou para 120.

Em algumas regiões, como a Capital e Grande Niterói, esse percentual chega a mais de 38%, ou seja, mais de uma em cada 3 mortes foi resultado da intervenção de policiais. “A participação da polícia no total de mortes violentas está aumentando. Estamos vendo o que alguns já chamam de estatização das mortes no Rio de Janeiro”, observou a coordenadora da Rede de Observatórios, Silvia Ramos.

O uso de helicópteros em operações também chama atenção. Este ano, o Observatório já registrou 34 operações em que essas aeronaves foram usadas. Segundo o Fogo Cruzado, em 11 dessas operações os helicópteros foram usados como plataformas de tiro. ” O uso de helicópteros aterroriza as populações, paralisa o funcionamento de serviços e do comércio e tem pouca ou nenhuma efetividade quando se trata de desarticular grupos criminosos”, disse Silvia.

Além da equipe do Observatório, o encontro teve a participação de analistas, que reagiram aos números apresentados. Daniel Lozoya, defensor público, lembrou os benefícios obtidos por ação pública impetrada em 2016, depois que uma operação policial deixou um morto e seis baleados no Complexo da Maré. A ação foi deferida em 2017 e, embora medidas solicitadas, como um plano de redução de danos e a presença de câmeras em todas as viaturas, não tenham sido efetivadas, a mobilização por um protocolo de atuação das polícias surtiu efeitos. Uma das medidas solicitadas foi a suspensão do uso de helicópteros. Na Maré, relatou Lozoya, houve redução de 61% das operações policiais e de 70% do fechamento de escolas. “Este ano tivemos um aumento expressivo de operações e de fechamento de escolas, que já superaram os números de todo o ano de 2018”, disse Lidiane Malanquini, coordenadora da Redes da Maré (veja abaixo a apresentação de Lidiane).

Rafael Soares, jornalista do Extra, comentou a falta de dados públicos sobre operações e a necessidade de que a sociedade se mobilize para exigir protocolos para essas ações. “O uso desses helicópteros está cada vez mais frequente. Falta uma instrução normativa sobre o uso – isso é algo que precisa ser cobrado. A polícia usa o helicóptero porque pode. Não há mecanismos de controle”, disse o jornalista, que por mais de um ano colecionou negativas ao tentar obter os dados para uma reportagem sobre o uso dos “caveirões voadores”. Os dados foram finalmente obtidos por ação judicial, com base na Lei de Acesso à Informação.

“Enquanto não tivermos modernização das instituições e mecanismos de controle mais sólidos vamos patinar sem sair do lugar, infelizmente. É ruim para a sociedade, que sofre grandes prejuízos humanos e materiais, e é ruim para os policiais”, comentou Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado Maior da PM e antropólogo.

Rafael Soares, do Extra, ressaltou necessidade de cobrar transparência nos dados públicos

Também participaram do evento Daniel Hirata, professor da UFF e pesquisador do NECVU, da UFRJ; Fransérgio Goulart, do Forum Grita Baixada; Itamar Silva, do Grupo Eco, Santa Marta; Jota Marques, educador e coordenador do projeto Marginow, da Cidade de Deus; Maria Isabel McDowell Couto, do Laboratório de Dados Fogo Cruzado; Rafael Soares, jornalista do Extra; e Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado Maior da PM e doutorando em Ciências Sociais.