Rede de Observatórios de Segurança

Rede de Observatórios de Segurança

Categoria: Racismo e injúria racial

Foto: Flickr Pmerj

Da abordagem à força letal: racismo e morte nas estratégias da polícia do RJ

Por Silvia Ramos*

Imagens chocantes mostram Jordan Luiz Natividade, de 17 anos, e Edson Arguinéz Júnior, de 20 anos, sendo abordados por policiais do 39º. BPM (Belford Roxo). As cenas ilustram de forma contundente os dados e as dinâmicas descritas no documento A cor da violência policial: a bala não erra o alvo, lançado na semana passada pela Rede de Observatório da Segurança. A gravação foi entregue à polícia por familiares no domingo (13), após os corpos dos dois amigos serem encontrados com tiros e marcas de violência em um matagal. 

Edson e Jordan foram encontrados mortos após abordagem policial

Edson e Jordan foram abordados numa estratégia de “policiamento preventivo”, não porque estivessem ameaçando a vida dos policiais ou fugindo da cena de um crime (e mesmo nesse caso a força letal não seria adequada). O vídeo revela precisamente o que ocorre com frequência: policiais atiraram antes de perguntar.Eles usam primeiro o último gradiente da força policial (disparar para matar). Depois de chutarem as vítimas e verificarem que não havia armas com Edson e Jordan, os policiais colocaram os jovens algemados na viatura. Estas são as últimas imagens dos dois com vida.

Quantos casos semelhantes ocorrem todos os meses no Rio de Janeiro sem o registro de imagens? Em 2019, entre as 5975 mortes violentas intencionais registradas no estado, 4004 foram homicídios, 1814 mortos por policiais e 48 policiais mortos (além de 117 latrocínios e 46 lesões corporais seguidas de morte). Houve ainda o registro de 4.334 mortes a esclarecer que é quando cadáveres e ossadas são encontrados sem explicação – seria o caso dos meninos de Belford Roxo se não existisse um vídeo.

Sabemos também que casos como o de Ágatha, morta em 2018 por policiais no Complexo do Alemão e de João Pedro, morto em 2020 por policiais em São Gonçalo não são contabilizados como mortes decorrentes de intervenção policial. Isso porque não houve confronto. O mesmo pode acontecer com  Emilly e Rebeca, que morreram em Caxias na semana passada.

Então, a pergunta é: será que o número já assombroso de 1814 mortes pela polícia é muito maior? 

Instruídos para mentir 

Em mais de 20 anos de pesquisas sobre violência e polícia no Rio de Janeiro, nunca vi um policial abraçar uma mãe de favela, pedir desculpas e dizer “matei seu filho sem querer”, ou “me perdoe”. Nos  20.000 casos de mortes por policiais nos últimos 20 anos, raramente policiais reconhecem que atiraram antes de perguntar, cometeram um erro, excederam o uso da força ou poderiam não ter matado.

Isto acontece porque os policiais no Rio de Janeiro são instruídos, desde que entram na corporação, a mentir. Se o caso ocorreu numa favela ou bairro pobre da região Metropolitana e os “suspeitos” são jovens negros, policiais invariavelmente dizem que sofreram injusta agressão e reagiram.  Ou que não efetuaram disparos e os tiros vieram de criminosos. Em alguns batalhões, existe o “kit auto de resistência”, com uma arma, um rádio transmissor e porções de drogas. Esse kit é colocado junto ao morto e essa morte não é investigada pela polícia ou Ministério Público.

A polícia do Rio de Janeiro é uma máquina de matar jovens negros. Não me pergunto mais  quando policiais vão parar de matar. Questiono é quando vão assumir os erros que cometem. 

*Silvia Ramos é coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança e do Centro de Estudos da Segurança e Cidadania – CESeC.

Dados inéditos comprovam que negros são o alvo da letalidade policial nos cincos estados monitorados pela Rede de Observatórios

  • 97% dos mortos pela polícia na Bahia são negros
  • Ceará não notifica a cor dos mortos em 77% dos casos
  • Nove em cada dez mortos pela polícia são negros em Pernambuco
  • 51% da população do RJ é negra, mas entre os mortos pela polícia negros são 86% 
  • São Paulo vê aumento da letalidade policial e entre os mortos 64% são negros 

A cor da violência policial: a bala não erra o alvo, novo relatório da Rede de Observatório da Segurança, traz dados dos cinco estados monitorados pela rede  e escancara a dinâmica racista da letalidade policial. O estudo apresenta um retrato preciso da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo com dados de 2019 que comprovam que a bala da polícia é dirigida à população negra. 

A Bahia apresenta o maior percentual de negros mortos pela polícia e em números absolutos fica atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo: 97% do mortos em ações policiais são negros. A polícia do Rio de Janeiro matou 1814 pessoas no ano passado, o maior número em 30 anos, sendo 86% delas negras. Ao olharmos o número absoluto de mortes em Pernambuco em comparação a Rio, Bahia e SP, cria-se a falsa impressão de que são poucos mortos em ações policiais no estado (74 pessoas), no entanto, a proporção de negros entre as vítimas é de 93%. No Ceará, 77% dos casos não têm registro de cor, ainda assim, o percentual de negros mortos é de 87% – maior que o do RJ. Em São Paulo, a polícia parece ter carta branca para matar. Mesmo com a diminuição do número geral de homicídios, existe uma crescente de mortes em ações policiais e o estado chega a registrar 63% de negros entre os óbitos – a população negra representa 34%. 

Os números assustam até mesmo quem acompanha diariamente as ações policiais há anos. Já se sabia que 74% dos homicídios no Brasil são de pessoas negras e que 79% dos mortos pela polícia também são pessoas negras, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Porém, os novos dados da Rede são surpreendentes. “É a primeira vez que é feita uma investigação como esta. Com esses dados podemos mostrar que não é um viés racial, não é excesso de uso da força, não é violência policial letal acima do tolerado, é racismo. Quando analisamos a violência policial nós não conseguimos contabilizar abordagens violentas, espancamentos, humilhações do dia a dia, mas conseguimos contar os corpos empilhados nessas ações” explica Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança e do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

Os dados foram obtidos via Lei de Acesso à Informação diretamente com as secretarias de segurança dos estados após um processo longo e demorado que esbarrou na omissão dos números. Depois, foram checados e comparados com dados sobre cor das populações de cada estado no censo do IBGE. Os números são oficiais e comprovam que a violência policial é racializada

Estado por estado

Bahia – O estado vive uma escalada no número de violência. Novembro de 2020 foi o mês mais violento do ano com registro de 17 homicídios em apenas um final de semana. Amaralina já vive uma semana ininterrupta de operações policiais em dezembro. De acordo com relatório, a polícia baiana matou 650 pessoas em 2019 e 97%, quase todas, são negras. A população negra no estado é de 76,5% segundo o IBGE.

Ceará – Existe uma omissão quanto a cor dos mortos pela polícia no estado. 77% dos registros não possuem essa informação. Essa omissão é uma forma de racismo institucional que apaga os números de pessoas negras vitimadas. Sem números, as análises são comprometidas. Ainda assim, o estado possuí um percentual maior que o do Rio de Janeiro de negros mortos em ações policiais no últomo ano: 87%

Pernambuco – A violência no estado segue a tendência de alta nacional. Para cada dez pessoas mortas no estado, nove são negras – percentual de 93%. O número de mortos pela polícia no ano passado é o dobro de 2015. Somente no primeiro semestre de 2020 foram registradas 55 mortes em ações policiais. 

Rio de Janeiro – O Rio Janeiro bateu o recorde dos últimos 30 anos com 1814 mortes em 2019 – 86% dessas pessoas mortas eram negras e a população no estado é de 51%. Neste ano, o Rio seguiu com alta no número de mortos em ações policiais. O que levou o STF a intervir e a proibir operações em comunidades durante a epidemia de coronavírus. Medida que foi desrespeitada pelo governador em exercício Cláudio Castro. Houve um aumento de 415% de mortes em outubro e o Supremo precisou cobrar explicações. Em dezembro, mais duas crianças negras, Emylli e Rebecca, foram atingidas por balas perdidas. 

São Paulo – Os homicídios em São Paulo estão caindo de forma drástica desde 1999. Passou da casa dos 44 para 8 homicídios por 100 mil habitantes, a menor entre as 27 unidades da federação brasileiras. No entanto,  20% de todas as mortes do estado são causadas pela polícia. Do total de mortos, 62,8% são negros, mesmo correspondendo a somente 34,8% da população paulista. 

Rede divulga dados inéditos reunidos em um ano de monitoramento

A Rede de Observatórios da Segurança divulga nesta terça-feira, 14 de julho, a publicação Racismo, motor da violência, com uma live com o mesmo título às 18h, pelo Youtube do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania. Resultado de um ano de monitoramento em cinco estados brasileiros, o boletim analisa mais de 12.500 registros de eventos relacionados à segurança pública e à violência em cinco estados: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Os dados foram reunidos através do acompanhamento diário de jornais, sites, portais noticiosos, perfis de redes sociais e grupos de WhatsApp pelos pesquisadores da Rede, com base em uma única metodologia de classificação. Entre muitas outras descobertas, o relatório demonstra a ausência de registros sobre racismo e injúria racial (só 50 ocorrências), em contraste com a abundância de notícias sobre ações policiais (mais de 7 mil casos). O documento também aponta como a predominância de negros e negras entre as vítimas de violência está ausente do debate público.  Pretos e pardos são a grande maioria dos mortos pela polícia, mas em 7.062 notícias sobre ações policiais analisadas houve apenas uma menção à palavra negro e equivalentes.  

Dividida em capítulos, a publicação traz dados sobre Policiamento, Feminicídio e violência contra a mulher, Violência letal e Sistema penitenciário e socioeducativo, além de textos analíticos assinados pelos pesquisadores e coordenadores dos Observatórios da Segurança.

A live de abertura terá a presença de Dudu Ribeiro, coordenador do Observatório da Bahia e da Iniciativa Negra para uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Preto Zezé, presidente da Central Única de Favelas (Cufa); Flávio VM Costa, escritor e repórter especial do UOL; Monica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco; Pedro Paulo Silva, pesquisador da Rede de Observatórios. Assista no Youtube do CESeC: bit.ly/CESeCYouTube.

Outros debates ao vivo estão programados para as próximas semanas, com a presença de representantes da Rede – Bruno Paes Manso (SP); Edna Jatobá (PE); Pablo Nunes (RJ); Ricardo Moura (CE); e Silvia Ramos (RJ) – e convidados.

Um projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, a Rede é formada por cinco observatórios locais, mantidos em parceria com as organizações: Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop); Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC); Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP).

Veja a seguir alguns destaques do relatório Racismo, motor da violência.

POLICIAMENTO

A Rede de Observatórios da Segurança é a única iniciativa que monitora operações policiais. O acompanhamento é feito desde 2018, no Rio de Janeiro, e de junho de 2019, nos cinco estados que formam a Rede. O balanço de um ano de casos confirmou a letalidade das polícias no Brasil: as operações e patrulhamentos monitorados pelos cinco Observatórios durante um ano resultaram em 984 mortos e 712 feridos. Ou seja: uma em cada sete operações monitoradas registrou ao menos uma morte.

O Rio de Janeiro é o estado que teve mais ações policiais – foram 2.772, no período – seguido por São Paulo (2.210), Bahia (1.105), Ceará (707) e Pernambuco (358). O estado fluminense também registrou o maior número de vítimas nestas ações monitoradas: ao todo, foram 981 pessoas. O total inclui 483 mortos (inclusive 19 crianças) e 479 feridos. São Paulo teve 362 vítimas (249 fatais) e a Bahia, 332 (260 fatais).

FEMINICÍDIO E VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER

Durante o seu primeiro ano de monitoramento, a Rede de Observatórios da Segurança também se dedicou a monitorar os dados de violência contra mulher. Ao todo, foram computados 1.408 casos desta natureza nos cinco estados monitorados. Juntos, feminicídios e tentativas de feminicídio correspondem a 68,8% deste total –

454 e 516, respectivamente. São Paulo foi o estado com mais casos de feminicídios (175), seguido de Pernambuco (90) e Bahia (75).

VIOLÊNCIA LETAL

A Rede de Observatórios não monitora homicídios, já que dados sobre este crime são disponibilizados pelos governos e acompanhados por outros projetos, como o Monitor da Violência. No entanto, a Rede acompanha determinadas dinâmicas da violência letal.

  • Em um ano de monitoramento, nos cinco estado, foram registradas 101 chacinas – eventos em que três ou mais pessoas são mortas na mesma ocasião. As três cidades com mais registros deste tipo de violência são: Rio de Janeiro (23), Salvador (17) e Fortaleza (7).
  • Os pesquisadores da Rede registram um linchamento ou tentativa de linchamento a cada quatro dias. Ao todo, foram 74 ocorrências. Pernambuco foi o estado com mais casos – 26 ao todo, seguido do Ceará (16) e Bahia (15), Rio de Janeiro (9) e São Paulo (8).
  • A Rede também monitorou casos de violência letal contra as crianças e adolescentes. Ao todo, foram registrados 291 assassinatos de menores de idade e 27 tentativas de homicídio.

ATAQUES DE GRUPOS CRIMINAIS

Ações de grupos armados, com clara intenção de demonstrar poder, promovem um sentimento de insegurança na população e influenciam as estratégias dos governos em relação às políticas de segurança pública. O Ceará foi o estado que registrou mais ocorrências no período, inclusive uma onda de ataques, em setembro de 2019. O estado registrou 117 ocorrências, com 81 veículos e 31 construções queimados ou depredados no período abrangido pelo monitoramento da Rede de Observatórios.

SISTEMA PENITENCIÁRIO E SOCIOEDUCATIVO

O relatório da Rede de Observatórios confirma uma tendência já apontada: apesar do grande contingente que cumpre medidas no Sistema penitenciário e socioeducativo, o interesse da sociedade e das autoridades em discutir esses espaços é pequeno. Só 1% dos registros da Rede (183 casos) diz respeito a estas instituições. Notícias sobre fugas, rebeliões ou ocorrências policiais são 58% destes relatos, mostrando a preocupação com o perigo que os detentos podem representar para a sociedade. Segundo o Infopen, 63% dos encarcerados são negros.

Leia e baixe o relatório Racismo, motor da violência.

Rede no encontro da Bahia

Violência e racismo na Bahia

Uma Bahia violenta e, na violência, racista e desigual. Este foi o retrato que emergiu da apresentação do estudo “A cor da violência na Bahia: Uma análise dos homicídios e violência sexual na última década”, no dia 5de março, em Salvador. Inédito, o estudo da Rede de Observatórios da Segurança analisou dez anos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) para traçar a evolução das mortes violentas no estado e revelar com dados a chocante concentração da violência letal e sexual entre negros e negras.

“Este é o gráfico mais chocante que já apresentei em 30 anos de pesquisa sobre segurança pública”, enfatizou a coordenadora geral da Rede, Silvia Ramos. No telão, uma representação dos homicídios entre homens na Bahia, comparando brancos e negros. A partir dos 10 anos de idade, um abismo se abre entre os dois grupos populacionais. No grupo entre 20 e 29 anos, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes é de 55 para brancos e 236 para negros. “Esse gráfico é uma metáfora do racismo brasileiro. É por isso que a gente não consegue mudar e continuamos a ser um dos países mais violentos do mundo”, continuou Silvia.

As mulheres negras também sofrem com a violência sexual mais do que as brancas, mostrou o mesmo estudo. De 2009 a 2017, 6.975 mulheres foram vítimas de violência sexual na Bahia, com aumentos sucessivos de ano a ano: em 2009, foram registrados 121 casos; oito anos depois, em 2017 (últimos dados disponíveis), o número de ocorrências foi de 1.194, um aumento de 887%.

Dos casos de violência sexual registrados em 2017 pelo SUS – último ano para o qual dados estão disponíveis – 73% vitimaram mulheres negras e 12,8%, brancas. “A taxa deste crime entre mulheres negras habitantes da Bahia é 16 casos por cem mil, o dobro da taxa entre brancas, que é de 8 por cem mil mulheres”, diz o texto.

O encontro discutiu a política de Secretaria de Segurança da Bahia, que não disponibiliza publicamente os dados sobre eventos violentos de forma acessível. “Quantas pessoas foram mortas pela polícia baiana em 2019? Não se sabe, pois a polícia não divulga. Imaginem se, nessa crise do coronavírus, os secretários de Saúde decidissem não divulgar o número de casos? Seria inconcebível. Mas na área da segurança pública isso é possível”, continuou Silvia.

Silvia Ramos
Silvia Ramos apresenta os dados sobre segurança em encontro da Rede

Por isso mesmo, projetos independentes de formação de dados estão crescendo na Bahia. Benila Regina Brito, do Odara Instituto da Mulher Negra, contou que, depois de anos de realização do projeto “Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, de apoio a mães e familiares de jovens vítimas da violência policial”, a organização sentiu necessidade de produzir o seu próprio mapeamento de casos. “Sabemos como é difícil trabalhar com esses casos. Cada jovem assassinado impacta a família inteira”, comentou.

Jornalistas do Correio, um dos maiores veículos da imprensa baiana, também se mobilizaram para criar o projeto Mil Vidas, que disponibiliza os dados de homicídios em um site próprio. “Embora, durante anos, toda a base tenha sempre estado disponível para qualquer cidadão no link indicado, desde 2018 a SSP vem retirando antigos registros, deixando apenas os de meses mais recentes. O Correio, então, decidiu publicar na íntegra todos os dados coletados nessa base desde janeiro de 2011.” Os dados ficam disponíveis para download neste link.

Dudu Ribeiro: aprendizado

 “Essas experiências nos ensinam muito”, comentou Dudu Ribeiro, coordenador do Observatório da Segurança Bahia. “Vamos conversar mais com o Mil Vidas e o Odara para ampliar nossa capacidade de monitoramento”, disse.

Luciene Santana
Luciene Santana: periferias invisíveis

No encontro, os participantes também discutiram a importância do  trabalho da imprensa como um observador crítico e independente das políticas governamentais. “No nosso monitoramento,  percebemos que muitos jornais simplesmente replicam as informações oficiais. Ainda existe uma invisibilidade muito grande sobre o que acontece nos bairros periféricos. Além disso, a imprensa muitas vezes não classifica feminicídios como feminicídios. Quatro mortes violentas numa mesma localidade, na mesma ação, e os jornais não chamam de chacina”, disse Luciene Santana, pesquisadora do Observatório da Segurança da Bahia.

“É interessante refletir sobre as condições de produção da notícia. Com a redução de pessoal nas redações, muitos repórteres não vão mais ao local do fato e dependem de informações e imagens fornecidas pelos policiais”, ponderou Ricardo Moura, pesquisador do Observatório da Segurança do Ceará.

Encontro da Rede começa com relatos de violência em cidade da RM de Salvador

No primeiro dia do Encontro da Rede de Observatórios de Segurança na Bahia, o grupo pegou a estrada e foi até Lauro de Freitas, município da Região Metropolitana de Salvador, para uma reunião com 35 lideranças comunitárias e ativistas de direitos humanos, educação popular e cultura. Em pauta, os efeitos da política de guerra às drogas sobre as comunidades e o cotidiano de homicídios e violência policial na localidade.

O encontro reuniu um grupo de varias idades, vinculados a  interesses diversos:  coletivos de hip hop e cultura africana; terreiros de candomblé; movimentos por direitos das mulheres e educação popular; associações comunitárias e militância antirracismo e LGBTQ+. Em quase três horas de relatos, foi se desenhando uma Lauro de Freitas conturbada e afetada por uma profunda divisão social.

Conhecido pelas belas praias e algumas grandes indústrias, o município de cerca de 200 mil habitantes tem sido notícia na imprensa baiana e nacional também pela violência. Em 2019, Lauro de Freitas foi classificado como o 9º mais violento do país, segundo o Atlas da Violência.

A Estrada do Coco, que corta o município e segue em direção ao litoral Norte da Bahia, foi descrita como o “nosso muro de Berlim”, que separa os ricos bairros da beira-mar, como o Villas do Atlântico, de comunidades pobres como Vida Nova e dos conjuntos habitacionais do projeto Minha Casa, Minha Vida.

Praia de Villas do Atlântico

Silvia Ramos, coordenadora geral da Rede de Observatórios da Segurança, comparou os dados de 2018 de mortalidade violenta no estado, que constam no estudo “A cor da Violência na Bahia”, que será lançado hoje, 5 de março. Enquanto a taxa de homicídios no Brasil é de 28 por 100 mil e a de Salvador é de 41 por 100 mil, a de Lauro de Freitas é de 79,94 por 100 mil. “ É alta. Mas tenho certeza de que, se pudéssemos calcular, a taxa de homicídio em Villas do Atlântico seria próxima da de Portugal, de 1 por 100 mil; e a das comunidades sobre as quais estamos falando aqui seria das mais altas do Brasil”.

Muitos presentes relataram casos de violência policial – mesmo no entorno de escolas. “O menino estava fumando um baseado perto da escola e o policial bateu nele porque era maconheiro. E nas Villas do Atlântico os surfistas fumam maconha todos os dias e os policiais passam sem olhar”, contou um dos presentes.

 “Eu vivo numa comunidade doente, exposta a ações truculentas da Polícia. Ano passado um torneio de futebol reuniu jovens, pais. A polícia entrou e jogaram gás lacrimogênio. Protestaram. Um dos policiais mirou e deu um tiro no peito de um jovem trabalhador, pai de família, na frente de 100 pessoas”, contou um morador de Vida Nova.

Uma moradora do Conjunto Habitacional Leila Diniz, no bairro de Itinga, fez um relato dramático: “Em cinco anos que eu morei lá eu enterrei 56 jovens. Todos mortos por policiais. Tenho a data e o nome de cada um “.

Articulador do encontro, Ricardo Andrade disse que espera que o diálogo com a Rede de Observatórios e a Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas (INNPD) tragam mais visibilidade para a violência e as violações de direitos humanos no município. “Aqui morrem lideranças comunitárias, acontecem chacinas e não tem repercussão na imprensa e na sociedade. O que mais nos angustia é essa falta de reverberação”.